
Se fazer um épico romântico grandioso sem um pingo de auto-paródia já é uma empreitada e tanto, imagine se a história ainda tem ambições histórico-nacionalistas? Baz Luhrmann, dotado de um orçamento estratosférico e duração idem, apostou suas fichas nessa produção e o resultado é entretenimento puro.
Neste que é seu quarto filme, Lurhmann diminui o tom da estética kitsch que até aqui era sua assinatura e faz um delicioso pastiche. Se em MOULIN ROUGE, sua obra-prima, o bric-a-brac pós-moderno ousava misturar o musical hollywoodiano, o romance inglês do século XIX e Bollywood (entre inúmeras outras referências), em AUSTRÁLIA o diretor usa como molde os filmes da era de ouro do cinema americano: UMA AVENTURA NA ÁFRICA, E O VENTO LEVOU, O MÁGICO DE OZ.
Aliás, tanto a história de amor de Scarlett O'Hara e Rhett Butler quanto a visita de Dorothy 'além do arco-íris' foram lançadas em 1939, e não parece ser coincidência que esse é extamente o ano que Luhrmann escolhe para começar a contar como Sarah Ashley (Nicole Kidman), uma dondoca inglesa, vai parar na Austrália para tomar posse da fazenda de seu falecido marido. Lá ela conhece o misterioso e rude Drover (Hugh Jackman), homem que vai ajudá-la em sua jornada de dama da sociedade à mulher de fibra.
O filme é claramente dividido em três atos e muita (muita mesmo!) coisa acontece, mas nunca há a sensação de que AUSTRÁLIA está indo para lugar nenhum (como em O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, por exemplo). Lurhmann ensaia uma crítica séria ao episódio da 'geração perdida' australiana (assim os créditos iniciais e finais querem nos fazer acreditar), mas sua atenção está mesmo na criação de uma emoção genuína - que, curiosamente, nada mais é que um reflexo das mesmas emoções já criadas pelos filmes que serviram de base para seu pastiche.
Nicole Kidman cai na brincadeira, fazendo uma Katherine Hepburn over que miraculosamente dá certo. O Drover de Hugh Jackman é mais um arquétipo que um personagem, e o look de galã dos anos 40 (um tanto mais bombado, claro), só ajuda na sua atuação. Algumas convenções do gênero são deliciosamente espertas (como o vilão de bigodinho vivido por David Wenham), outras são de gosto duvidoso (matar o personagem negro bonzinho, algo no mínimo de mal gosto considerando um filme tão interessado na igualdade racial).
Se o "cinema como espetáculo" hoje em dia parece estar resumido a já cansativa fórmula dos filmes de super-heróis, felizmente existem cineastas como Baz Luhrmann que nos fazem lembrar de que é possível fazer obras grandiosas, emocionantes e apaixonantes - mesmo em um tempo cínico como o nosso.






















