- HOLY MOTORS: Quem precisa de drogas para entrar em transe quando se tem Leos Carax e seu HOLY MOTORS? Não sei se "entendi" 30% do filme, mas fato é que as imagens hipnóticas, com sua aura onírica perturbadora ficam com você por bastante tempo - eu vi o filme há três dias e continuo pensando nele. Uma tentativa de sinopse: um homem misterioso (Denis Lavant, contribuidor antigo de Carax), durante um único dia, vive uma série de personas diferentes. O motivo - como quase tudo no filme - não é explícito (contratado por mafiosos? marionete na mão de milionários? um reality show cósmico?), mas fato é que esse homem passa todo o dia na parte de trás de uma limousine trocando de perucas e aplicando maquiagem para incorporar diversas identidades (uma pedinte, um louco, um pai de família, um assassino, um performer virtual etc.) HOLY MOTORS conta com um oceano de referências (que vão de Lynch a Godard) e várias piadas internas, como Kylie Minogue - em tristíssima personagem - cantando, e "Can't Get You Out of My Head" faz parte da trilha-sonora. Múltiplas interpretações são possíveis sobre a narrativa (eu, por exemplo, gosto de ver o filme como uma meditação sobre a fluidez da identidade no mundo contemporâneo), mas fato é que Leos Carax construiu um dos filmes inesquecíveis de 2012.
- GRANDES ESPERANÇAS: Bastante competente e fiel adaptação do clássico de Dickens. Se já temos a versão super-gótica de David Lean e a pop-contemporânea de Alfonso Cuarón, Mike Newell prefere se concentrar no assunto no qual Dickens (e toda a cultura inglesa, na verdade) tem particular interesse: as diferenças de classe social e como elas afetam a identidade individual. O elenco é bastante irregular: Jeremy Irvine é um Pip melhor quando tem de demonstrar seu lado romântico e inocente, mas não convence muito como gentleman; Ralph Fiennes vive um Magwitch triste e amargurado como nenhum antes; Holliday Grainger é uma Estella pra lá de sem sal; e Helena Bonham Carter, que era aguardadíssima como Miss Havisham, tem uma atuação apenas correta. Embora esteja longe de ser um filmaço, GRANDES ESPERANÇAS seduz e encanta.
- DEIXE A LUZ ACESA: Mais novo integrante do movimento chamado pelo The Guardian de "New Wave Queer Cinema", DEIXE A LUZ ACESA é um filme semi-autobiográfico de Ira Sachs, ficcionalizando seu relacionamento complicado com o agente literário Bill Clegg (que já contou sua versão da história no livro "Retrato de um Viciado quando Jovem"). No filme, Erik (Thure Lindhardt) e Paul (Zachary Booth) vivem um relacionamento aparentemente sólido e estável, mas o crescente vício de Paul em drogas torna a vida do casal um pesadelo. A estética ultra-realista pertence à mesma escola de NAMORADOS PARA SEMPRE e, especialmente, WEEKEND, embora o resultado não tenha a mesma carga dramática. Apesar do ótimo desempenho do casal protagonista, os diálogos pouco inspirados e repetitivos acabam cansando e reduzindo o peso das decisões dos personagens a um mero "discutir a relação". Um filme que exemplifica a maturidade da temática gay no cinema, mas que de certa forma acaba vítima do seu ultra-realismo.



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