
Para um filme tão fascinado com camadas e profundidade, me chamou atenção como na maioria das vezes A ORIGEM se mostra pouco ousado e geralmente superficial em suas representações dos limites entre o sonho, a memória e a realidade. Quando eu soube que Christopher Nolan, um dos mais interessantes diretores da nova geração, estaria envolvido num projeto original de ficção científica meu lado geek ficou ansioso. Os detalhes do projeto, que surgiam a conta-gotas na mídia, pareciam vislumbrar um projeto promissor. Contudo, me parece que aos invés de se sentir livre pra trabalhar na atmosfera anárquica que se associa ao mundo dos sonhos, Nolan preferiu revesti-lo de um sem número de regras que acabam por engessar a trama.
Leonardo DiCaprio (que parece estar se especializando em personagens amargurados) é um ladrão pouco usual: através de um artifício químico-tecnológico ele invade o sonho dos indivíduos e de lá retira as informações que precisa. No entanto, quando recebe o serviço de implantar uma ideia no subconsciente de alguém, sua situação se complica. No melhor clima ‘filme de roubo’, há um time de gatunos com direito ao engraçadinho (Tom Hardy), à nerd sabichona (Ellen Page) e ao que só pensa no ‘trabalho’ (Joseph Gordon-Levitt). Como se infiltrar na mente de alguém não fosse suficiente, ainda existe a oportunidade da projeção mental da ex-mulher de DiCaprio (Marion Cotillard, linda como nunca) atrapalhar tudo.
Um filme que numa única cena cita 2001 e CIDADÃO KANE é, no mínimo, ambicioso, e A ORIGEM não esconde que pretende unir uma histórial cerebral com um ritmo de cinema de ação. Visualmente, o resultado é fascinante: Christopher Nolan é um dos poucos diretores que sabem usar os efeitos especiais a favor do enredo e não o contrário. Algumas das sequências de sonho são incrivelmente bem construídas, como a cidade que se dobra ao meio e especialmente a sequência em que o personagem de Gordon-Levitt tem de lutar na gravidade zero. Quem conhece o cinema de Nolan sabe que de AMNÉSIA a O CAVALEIRO DAS TREVAS o diretor gosta de inserir momentos de uma fantasia poética até nas mais brutais das narrativas.
Por outro lado, parece que o roteiro é tão obcecado com as regras por trás desse mundo de sonhos que o filme fica impedido de alçar vôos mais altos. Cada novo elemento é explicado exaustivamente, e a liberdade que geralmente se associa ao próprio ato de sonhar fica limitado a uma série de convenções que a personagem de Ellen Page irritantemente pergunta o tempo todo, para que quem estiver ao lado dela dê um imenso sermão (não só a ela mas também à platéia). Na primeira vez é revelador, na segunda cansa, na terceira é de perder a paciência. Quem está acostumado a outras representações do sonho no cinema (Hitchcock, Resnais, Lynch, Linklater, Cronenberg) fica um tanto decepcionado com a timidez com que Nolan aborda o subconsciente. Se o estúdio não aprovaria um filme mais aberto à interpretação, é outra questão. Fato é que dessa vez Christopher Nolan deixou a desejar.
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