- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

Um parágrafo

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Morini (…) já tinha iniciado uma viagem (…) em torno de uma resignação, uma experiência em certo sentido nova, pois essa resignação não era o que comumente se chama resignação, nem mesmo paciência ou conformismo, mas era antes um estado de mansidão, uma humildade singular e incompreensível que o fazia chorar sem mais nem menos e em que sua própria imagem, o que Morini percebia de Morini, ia se diluindo de forma gradual e incontida, como um rio que deixa de ser rio ou como uma árvore que pega fogo no horizonte sem saber que está queimando.

Ontem li esse parágrafo no romance 2666, de Roberto Bolaño, e ele me disse muito. Estou ainda na página 115 (o livro tem 840), mas desde já é um dos melhores romances que já li.

O filme mais aguardado de 2011

Jane Eyre Mia Wasikowska Michael Fassbender 425x178 O filme mais aguardado de 2011 24 quadros por segundo

Eu acabei de fazer minha lista de filmes mais aguardados de 2010 e já tenho o candidato a produção que mais quero ver em 2011. Não só é um dos meus livros preferidos, mas tem um diretor talentoso e um elenco maravilhoso, incluindo dois protagonistas que podem se tornar dois dos grandes nomes de Hollywood no futuro.

Trata-se de JANE EYRE, adaptação do clássico de Charlotte Brontë. Uma das histórias de amor mais famosas da literatura, o livro narra a história de amor complicada entre Jane – moça não muito bonita e de origem pobre, porém determinada -  e Rochester – um típico gentleman britânico com um segredo no sótão. JANE EYRE já teve inúmeras adaptações, e entre as atrizes que viveram o papel dessa heroína da literatura inglesa estão Joan Fontaine, Samantha Morton, Anna Paquin e Charlotte Gainsbourg.

Dessa vez, a atriz principal será Mia Wasikowska, que está com tudo depois de protagonizar a mega-produção ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS de Tim Burton e o hit independente THE KIDS ARE ALRIGHT. A atriz recebe elogios por onde passa e acredito que ela tem o look perfeito para Jane Eyre – aparentemente frágil, mas desafiadora. Quem vai fazer o atormentado Rochester (papel que já foi vivido por Orson Welles) vai ser Michael Fassbender, que tem tudo para ser o novo George Clooney. O cara chamou a atenção de todos com sua brilhante atuação em HUNGER e também teve um pequeno mas decisivo papel em BASTARDOS INGLÓRIOS. Também não é à toa que ele estará nos próximos filmes de Neil Marshall, Steve Soderbergh e David Cronenberg. Rochester pode catapultá-lo ao mega-estrelato.

O diretor será Cary Fukunaga, que fez um dos filmes mais interessantes de 2009: SIN NOMBRE (se você não viu, vá ver). A escolha é pra lá de inusitada, já que SIN NOMBRE é sobre gangues e imigrantes ilegais da América Central – e o diretor pulou direto pra um clássico da Inglaterra vitoriana. Bem, depois que Ang Lee provou que não precisa ser nenhum lorde inglês para transpor um clássico da literatura britânica para as telas (vide RAZÃO E SENSIBILIDADE), acredito que Fukunaga pode sim trazer uma nova visão para a história de Charlotte Brontë.

O elenco ainda inclui nomes como Judi Dench, Jamie Bell e Sally Hawkins. Resta a dúvida se essa versão de JANE EYRE vai ser uma produção histórica de pedigree (estilo ORGULHO E PRECONCEITO) ou ser quase que independente (estilo BRIGHT STAR). Contudo, antes de mais nada, o filme tem que ser bom. Portanto, torço muito pra que Michael Fassbender e Mia Wasikowska consigam viver seus personagens de forma arrebatadora.

BRIGHT STAR

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Como bom professor de literatura inglesa e nerd que sou, quando foi anunciado o projeto da cinebiografia de John Keats, um dos grandes poetas românticos ingleses, fiquei super-ansioso. Se por um lado fiquei contente de ter a possibilidade de ver nas telas o retrato de um dos meus escritores favoritos, por outro lado me preocupou que natureza da adaptação da vida de Keats fosse seguir a regra dessas cinebiografias pavorosas que endeusam o protagonista mostrando como ele era ‘especial’.

Contudo, me tranquilizava que BRIGHT STAR estaria nas mãos de Jane Campion. Apesar de não ter feito nada realmente muito bom nos últimos anos, afinal trata-se da mulher por trás de RETRATO DE UMA MULHER (ótima adaptação de Henry James). Além, é claro, de O PIANO (quem fez O PIANO não precisa provar mais nada na vida).

Hoje, depois de ter assistido a BRIGHT STAR, não só vejo que as minhas preocupações era infundadas como também me surpreendi de como o filme é ao mesmo tempo simples em sua forma, porém extremamente analítico em seu retrato dos relacionamentos (amorosos, familiares, de amizade, de negócios) da Inglaterra do início do século XIX. Diferentemente da maioria dos filmes de época que sentem a necessidade de um certo exagero (das atuações ao figurino), há em BRIGHT STAR uma fina sutileza que dispensa floreios – a própria natureza instável de sua trama central já é suficiente para envolver o espectador em um outro universo.

Em termos gerais, o filme trata do amor proibido entre John Keats (poeta sem dinheiro, que vive dos favores de amigos e de seu ‘patron’) e Fanny Brawne, moça do campo um tanto moderna para seu tempo. A impossibilidade da consumação do relacionamento entre os dois passa primeiro pela instabilidade financeira de Keats e depois pela sua instabilidade de saúde, quando contrai tuberculose. Só que felizmente Campion nos poupa das grandes cenas de dramalhão com personagens gritando que não tem dinheiro ou trilhas bombásticas anunciando a morte de alguém a cada vez que ele tosse. Pelo contrário: há uma certa calma e tranqulidade na condução dos grandes dramas envolvendo o relacionamento entre Fanny e Keats – como se realmente se aproximasse de um poema.

Uma das decisões mais interessantes de BRIGHT STAR foi a de não ter a ambição de tentar transpor para cinema o processo criativo do escritor, o que teria sido uma tarefa inglória e provavelmente insatisfatória (especialmente em se tratando de um poeta romântico com o nível de subjetividade de Keats). Na verdade, Jane Campion preferiu concentrar-se na leitura dramática das cartas de dos poemas dos dois protagonistas, o que resulta em várias das melhores cenas do filme. Um dos melhores exemplos disso é a sequência em que ambos lêem o maravilhoso “La Belle Dame Sans Merci”, um dos meus poemas favoritos.

Abbie Cornish como Fanny Brawne se comporta no início como uma espécie de Elizabeth Bennet de Hampstead, o que  me incomodou um pouco. Mas à medida em que o filme avança impressiona como ela sustenta a personagem ao ponto de não ser possível partilhar da sua dor. Ben Whishaw é um Keats que capta perfeitamente toda a atmosfera romântica  do período mas também não sem mantêm alheio aos problemas do mundo material. O sempre ótimo Paul Schneider quase rouba todas as cenas como Charles Brown, o amigo e ‘patron’ de Keats – sua mistura de comicidade, mal-caratismo e por fim culpa é conquistadora.

E se não fosse o suficiente, durante os créditos finais ainda há Ben Whishaw fazendo uma leitura inspiradíssima de “Ode to a Nightingale”. Belíssimo filme que meio que passou despercebido, mas que tem tudo para virar cult entre literatos e românticos inveterados.

Pop Erudito: Walt Whitman + Levi’s

levisgoforthryanmcginley161 425x363 Pop Erudito: Walt Whitman + Levis estante

Para desespero de uns e deleite de outros, os novos comerciais da marca americana Levi’s usam dois marcantes poemas de Walt Whitman (o maior poeta da literatura dos EUA) para vender… calças jeans.

Como essa discussão sobre (arte versus comércio) é tãaaaaaao anos 80, nem vou falar isso aqui. Fato é que os comerciais são extremamente originais e realmente apresentam um frescor que vão além de modelos anoréxicas em produções exageradamente manipuladas digitalmente. Esse frescor é milimetricamente planejado? Claro que é! Mas a criatividade aqui faz toda a diferença para transformar um mero minuto de “compre essa calça jeans” numa pequena pérola artística.

Os dois comerciais, que tem como slogan “Go Forth”, foram ficaram a cargo de Cary Fukunagaque será o diretor da futura versão de Jane Eyre para o cinema. O primeiro comercial usa o poema “Pioneers! O Pioneers!” de Whitman, que em linha geral fala dos exploradores responsáveis pela expansão territorial dos EUA. Usando uma estética que ilustra a aproximação dos jovens com a natureza e o com um aspecto selvagem, a propaganda tem um apelo moderno e ao mesmo tempo poético.

O segundo comercial da linha “Go Forth” é ainda mais simbólico. Usando dessa vez o poema “América”, a propaganda utiliza a voz do próprio Walt Whitman (gravada de forma rudimentar no final do século XIX!) narrando seu texto. É uma América de cunho romântico, mesmo que esse romantismo agora inclua novas identidades que no tempo de Whitman não faziam parte do sonho americano (especialmente os negros, maioria no comercial).

Mesmo com bandeiras dos EUA ao vento, o comercial passa longe da patriotada – começando com a palavra AMERICA em neon quase submersa. Parece haver uma espécie de narrativa, com um empresário engravatado sendo acuado e mostrado com um olhar desesperado. Claro que ele não se encaixa no modelo de consumidor da Levi’s – o belo e endinheirado de 18 a 34 anos que faz a alegria de qualquer marca de roupas. Talvez por isso esse segundo comercial seja tão esperto: acaba nos convencendo que os verdadeiros norte-americanos e aqueles que fazem parte do público alvo da empresa são a mesma pessoa.

A campanha “Go Forth” também está sendo usada na mídia impressa, com fotografias de um tom lírico clicadas por Ryan McGinley e com alguns trechos de poemas de Whitman também.

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Para aqueles que acham isso o exemplo máximo da massificação da maior voz poética da literatura norte-americana, tornando arte em comércio, só resta pegar as tochas. Mas há de se admirar a criatividade e o talento por trás da criação dessas (e porque não?) também belas obras de arte.