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Clipografia – Diretores: David Fincher

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Antes mesmo de ser conhecido como o excelente diretor de cinema que é (SEVEN, CLUBE DA LUTA etc.), eu já adorava David Fincher pelos belíssimos clipes que dirigiu. Eu acredito que um bom diretor de clipes (assim como o de cinema) tem que ter um estilo próprio. Não que ele não possa ousar, mas que a qualidade de sua técnica seja reconhecível em cada cena. E diferentemente de vários diretores genéricos por aí, David Fincher sempre foi marcadamente inspirado, talvez o melhor diretor de clipes da geração MTV.

O videoclipe quando começava a se consolidar muitas vezes usava e abusava de cópias/paródias/homenagens ao cinema, a arte visual por excelência. O Material Girl de Madonna que é um grande pastiche de OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS e o Rush Rush da Paula Abdul que era uma bem-feita recriação de JUVENTUDE TRANSVIADA (com um jovem Keanu Reeves no papel do personagem de James Dean) são bons exemplos disso – e Fincher não escapou da moda. Um dos primeiros clipes dirigidos por ele foi o Cold Hearted Snake da mesma Paula Abdul, em que numa mistura de FLASHDANCE com ALL THAT JAZZ, há uma grande homenagem às coreografias de Bob Fosse.

Posteriormente Fincher continuaria trabalhando e aperfeiçoaria seu estilo. As marcas registradas do trabalho do diretor são o uso marcante do jogo de luz e sombras e um imenso trabalho de pós-produção. Em diversos clipes, o que dita o tom e o look da imagem é uso intercalado de uma luz forte, geralmente de tom azulado, e um sombreamento exagerado, que quase sempre dá um tom mítico ao cantor/banda.

Um dos seus melhores clipes, o Cradle of Love de Billy Idol, possui todas essas características. É um dos melhores exemplos de fotografia em videoclipe, ainda mais surpreendente porque o clipe inteiro se passa numa casa. Usando a idéia manjada da lolita que seduz o yuppie, Fincher realizou um dos clipes mais sensuais já feitos aonde a sexualidade é apenas sugerida. E os atores também são ótimos.

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No quesito ‘luz e sombra’, os clipes definitivos de Fincher são Freedom 90 de George Michael e Janie’s Got a Gun do Aerosmith. O primeiro foi talvez um dos poucos na época em que uma mega-estrela não aparecia no próprio clipe. Mas nem precisava: tinha Naomi, Cindy, Christy e Linda para compensar. O clipe parece um grande comercial de moda, mas o que o torna diferente é a constante luz azul e as sombras que parecem invadir todo o apartamento onde se encontram as modelos. Já o clipe do Aerosmith usa a estrutura clássica da banda cantando em um palco enquanto uma narrativa é contada. O que é diferente aqui é como o tom de tragédia e crime se faz presente, numa espécie de antecedente de SEVEN. O diretor meio que juntou os dois clipes em Who is it? de Michael Jackson, em que também há uma história de crime e o cantor aparece bem pouco.

Fincher também dirigiu clipes simples, que ao receberem um tratamento de pós-produção, ganham vida de uma forma inesperada. É o caso de Judith do A Perfect Circle (que parece um filme antigo e com defeito, bem ao estilo Tyler Durden em CLUBE DA LUTA) e 6th Avenue Heartache do Wallflowers (que ganha uma estrutura irregular, quase como uma grande ressaca). O grande trabalho de David Fincher no quesito pós-produção, no entanto, é o inesquecível Love is Strong dos Rolling Stones, em que a banda em versão ‘monstro de CLOVERFIELD‘ passeia por Nova York.

Mas os grandes trabalhos de Fincher foram mesmo ao lado de Madonna. Com a cantora, o diretor realizou a sublime trilogia ‘Hollywood clássica’: Express Yourself, Vogue e Oh Father. Nesses três clipes, David Fincher usa como inspiração filmes dos anos 30 e 40 para compor um look que é ao mesmo tempo representativo da vanguarda modernista e um grande bricolage pós-moderno.

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O clipe de Express Yourself (considerado pela Slant o melhor de todos os tempos), traz Fincher no seu ápice criativo. Um dos clipes mais caros do seu tempo (1 milhão de dólares em 1990), Express Yourself é uma versão pós-feminista do METROPOLIS de Fritz Lang. Do alto da torre mais alta da cidade, rodeada de arranha-céus e pistões que são verdadeiros símbolos fálicos, Madonna canta sobre auto-afirmação da mulher enquanto vive aprisionada por um magnata e observa operários saradões trabalharem lá embaixo. Os movimentos de câmera, sempre de cima para baixo, são um toque de mestre. O clipe brinca com as fronteiras dos gêneros e do sexo como instrumento do poder, um dos temas mais caro da videografia de Madonna.

Oh Father é o clipe em que Fincher se inspira em técnicas do expressionismo alemão (outra referência a Lang) e na profundidade de campo de CIDADÃO KANE para contar uma alegoria de amor e morte, tendo como pano de fundo o catolicismo onipresente na videografia de Madonna. Talvez o clipe mais perturbador da cantora, Oh Father usa o jogo onírico de imagens como metáfora para a perturbação na ordem religiosa/familiar: a mãe já começa o clipe morta (cena chocante dos lábios costurados), a mulher com sombra de menina, a jovem Madonna que dança sobre o túmulo da mãe e, principalmente, a brilhante sobreposição dos papéis masculinos, onde o pai, o amante e o padre são apenas versões da mesma figura opressora.

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Vogue é a obra-prima da parceria Fincher/Madonna. Apenas com cenas de estúdio, Fincher traduz a imagética da Hollywood dos tempos áureos na afirmação de Madonna como a nova diva que ultrapassa a linguagem do cinema através do videoclipe. Todo em art deco e com uma fotografia em preto e branco irretocável, o clipe re-atualiza a mitologia dos grandes nomes do cinema americano dos anos 30, 40 e 50 (Greta Garbo, Marlene Dietrich, James Dean, todos citados na letra da música) através do ‘Vogue’, na verdade um movimento de dança surgido no submundo negro e gay de Nova York. Ao juntar esses dois universos, Fincher e Madonna reconfiguram a iconografia clássica no qual o corpo de Madonna é o novo totem contemporâneo. Dessa forma, o Mainboucher Corset de Horst P. Horst e os quadros de Tamara de Lempicka são materializados em Madonna, assim como a cantora personifica todas as musas da Hollywood clássica.

Fincher ainda fez mais um clipe com a cantora, o ótimo Bad Girl, em que uma Madonna versão ‘empresária-bem-sucedida-porém-cachorrona’ recebe a visita do anjo da morte (ninguém menos que Christopher Walken). Se eu não me engano, esse foi o último clipe de Fincher, já que ele já tinha até mesmo dirigido ALIEN 3 antes.

Em resumo, David Fincher tem uma carreira videoclíptica espetacular que precedeu uma carreira cinematográfica ainda mais bem-sucedida.

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