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Críticos afiam as facas

Com a chegada da temporada de prêmios, os críticos já estão salivando por aqueles filmes que serão aclamados como ‘obra-primas’ e outros que serão solenemente chamados de ‘profunda decepção’. Nesse fim de semana, três deles receberam críticas reluzentes mas também arrasadoras do New York Times, onde escrevem os meus críticos favoritos: Manohla Dargis e A.O. Scott.

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Scott escreve sobre CHANGELING, o novo filme de Clint Eastwood cotadíssimo para o Oscar, especialmente o de melhor atriz para Angelina Jolie:

Observar Jolie percorrer a agonizante passagem emocional de Christine [sua personagem] – uma série de mudanças, da ansiedade ao terror, do luto à raiva, pausando ocasionalmente em uma calma desafiadora ou esperança trêmula – é testemunhar uma inegável tour de force de atuação cinematográfica. Uma atuação que insiste em ser reconhecida como excelente e pode, realmente, ser confundida com uma.

Isso chega às raias da maldade, acho que nem Bárbara Heliodora faria melhor: ele começa falando bem para depois meter a facada. E ainda piora, pois no parágrafo seguinte Scott afirma que Jolie “se move forçosamente como se estivesse na última aventura dos filmes de Lara Croft.” Ouch! De resto, ele acaba com o filme de uma maneira que nunca tinha visto a ‘grande crítica’ fazer desde que Clint Eastwood ultrapassou a barreira de estrela e passou a ser ícone.

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Outro filme comentado por Scott é I’VE LOVED YOU SO LONG, tambem cotado para o Oscar de melhor atriz devido à atuação de Kristin Scott Thomas, vivendo uma mulher que sai da cadeia após cumprir a pena pelo assassinato do próprio filho. O início da crítica de A.O. Scott é ironia pura:

Um sinal da estação, tão confiável como o cair das folhas ou a queda da temperatura, é a proliferação de crianças mortas, abusadas ou em perigo nas telas de cinema. Às vezes parece que você não consegue fazer um filme sério hoje em dia sem uma delas. Nada estimula a intensidade dramática tão efetivamente quanto uma criança em perigo (…) e nada parece deixar atores ambiciosos mais felizes do que o luto familiar.

É verdade, está mesmo se tornando uma vertente no cinema, não tinha parado pra atentar a isso. De qualquer forma, pelo menos o crítico enche de elogios a atuação de Scott Thomas, que diz ser capaz de uma ‘honestidade furiosa’ (adoro esses termos bombásticos da crítica que depois ilustram cartazes).

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E por fim, Manohla Dargis escreve sobre SYNECDOCHE, NEW YORK, o novo projeto de Charlie Kaufman e seu primeiro filme como diretor – que parece ter vaga certa na categoria de roteiro e quem sabe algum espaço para os seus atores também no Kodak Theater. Bem, se o trecho abaixo não é um elogio, eu não sei o que é:

Dizer que SYNECDOCHE, NEW YORK é um dos melhores filmes do ano ou mesmo um que carrego no coração é uma resposta tão patética a sua gigantesca ambição que eu posso muito bem terminar por aqui. Isso seria no mínimo uma resposta apropriada para um filme sobre o fracasso, sobre a luta para deixar sua marca num mundo repleto de pessoas que são mais talentosas, bonitas, glamurosas e desejadas que o resto de nós – nós que somos aleijados por uma inadequação narcisista, claro, mas também pelo horror real, por espinhas, flacidez e câncer que nós sabemos (nós sabemos!) que está nos devorando e nos deixando nenhuma outra escolha a não ser se deitar e morrer.

Esse talvez seja o elogio mais depressivo que já li, mas não deixa de ser espetacular. Mas se o texto de Dargis começa desesperançoso, o seu final é redentor reforçando a fé em Charlie Kaufman, no cinema, e na própria vida:

O filme é extravagantemente conceitual mas também ancorado no aqui e agora, razão pela qual, apesar de toda a sua inventividade, mundos dentro de mundos, e agonias sobre agonias, ele prega fortemente a favor de uma vivência real, pulsante, com corpos pressionados contra outros corpos. Estar aqui e agora, vivo no mundo como ele é e não como nós o imaginamos, parece uma idéia terrivelmente simples, mas ainda assim é a única idéia que vale a comoção, a angústia da influência e todo o resto (…) A vida é um sonho, mas apenas para aqueles que dormem.

Imaginem os textos que vem por aí de BENJAMIN BUTTON, REVOLUTIONARY ROAD ou THE ROAD (que infelizmente foi adiado para o ano que vem). Espero por essas críticas tanto quanto pelos filmes.

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