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MAD MEN: Duas temporadas, estilo único

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Comecei a assistir a MAD MEN logo depois da vitória no Emmy. Queria saber qual era a dessa série tão festejada como a nova salvação da TV a cabo americana depois do fim de THE SOPRANOS. Quando assisti ao primeiro episódio, confesso que achei um tanto trivial: um executivo de uma empresa de publicidade em Nova York tentando bolar uma campanha criativa para a Lucky Strike. No meio disso, ele arruma tempo para uma escapada sexual. Ao final do episódio, o empresário não só consegue bolar uma campanha brilhante mas também descobrimos que ele é casado (sua transa no meio do expediente foi portanto, com sua amante de longa data).

Achei então que a série seria isso – a cada episódio uma nova campanha publicitária, alguns personagens secundários engraçadinhos e o protagonista tendo que conciliar a mulher e a amante. Como me enganei. É interessante que assistir a MAD MEN é quase que um exercício de estilo: somos apresentados ao mundo dos EUA dos anos 60, o que por si só é uma excelente escolha temporal – a sociedade começa a sair do conservadorismo dos anos 50 e caminha para o liberalismo dos anos 70. As características mais evidentes da série começam a ficar claras: todo mundo fuma, bebe e transa loucamente sem pensar nas conseqüências, como se a vida fosse uma grande festa. Essa, contudo, é apenas uma forma de se ver MAD MEN. Mas como toda boa arte, o que importa mesmo está nas entrelinhas.

Um dos grandes estudiosos sobre o discurso histórico, Michel de Certeau, afirmou:


“Como o veículo saído de uma fábrica, o estudo histórico está muito mais ligado ao complexo de uma fabricação específica e coletiva do que ao estatuto de efeito de uma filosofia pessoal ou à ressurgência de uma ‘realidade’ passada. É o produto de um lugar.

Em outras palavras, a história – como discurso – fala mais sobre a época em que é escrita do que a época que quer retratar. E acredito que o mesmo é válido para MAD MEN. A série, com suas mudanças sociais brutais nas formas de comportamento (igualdade dos sexos, direitos civis dos negros, homossexualidade), está tratando como até hoje esses assuntos continuam sendo tabu e como os EUA ainda têm que amadurecer muito se pretendem ser um estado genuinamente democrático.  O paradoxo desse mundo de charme e sofisticação (com o glamour das roupas e jantares, com milionários bebendo coquetéis na Califórnia e apartamentos suntuosos na Park Avenue) que esconde o machismo, o preconceito e até mesmo a falta de maturidade desses personagens é talvez o que torna MAD MEN mais rico.

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Começando com o protagonista, Don Draper. Vivido pelo perfeito Jon Hamm (o mais próximo que existe de um Cary Grant pós-moderno),  o personagem tem camadas e camadas que começaram aos poucos a serem reveladas. Filho de uma prostituta, criado pelos tios rednecks violentos, assume a identidade de um companheiro de exército depois que o mesmo morre na Guerra da Coréia. O peso do passado parece que vai se tornando cada vez mais insuportável a cada episódio, e a atmosfera de ilusão na qual a sua vida é fundada acaba por afetar não só a sua família mas toda a idéia de perfeição na qual se fundamenta o sonho americano. Assim, sua casa de subúrbio de dois andares, seus casal de filhos, seu Cadillac na garagem e sua bela esposa são nada mais que objetificações do sucesso alcançado ao custo da mentira.

Os outros homens de MAD MEN não são muito diferentes. O deliciosamente odioso Pete Campbell (Vincent Kartheiser) é um almofadinha ambicioso que odeia a família e se mostra incapaz de demonstrar qualquer sentimento com a morte do pai; Salvatore Romano é homem casado que tenta esconder a todo custo sua homossexualidade; Paul Kinsey é um defensor dos direitos civis que tenta conciliar sua imagem sofisticada com o fato de possuir uma namorada negra; Roger Sterling é o dono da empresa da publicidade Sterling Cooper que, passando por uma crise de meia-idade, se envolve com qualquer rabo de saia etc.

No entanto, não importa o quanto fumem, bebam e transem, esses homens não conseguem escapar de uma profunda tristeza que acaba sendo a base de sua personalidade – especialmente porque em vários momentos se comportam de forma totalmente imatura, o que condiz com grande discussão atual sobre a infantilização do masculino.

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Essa tristeza, no entanto, transforma-se na mais profunda melancolia quando observamos as personagens femininas de MAD MEN. Com um trio talentosíssimo de atrizes dramáticas, os diferentes papéis que as mulheres tem que representar (não só nos anos 60, mas desde sempre) em sociedade são ao mesmo tempo disfarces e prisões. Betty Draper (a ‘Grace Kelly‘ para o ‘Cary Grant’ de Don Draper), vivida pela talentosíssima January Jones, é uma dona-de-casa entediada com a suposta perfeição de sua vida, prestes a explodir dentro de seus vestidos delicados e fazer ruir os muros da repressão com uma fúria de Douglas Sirk. Peggy Olsen (com atuação minimalista de Elizabeth Moss), é uma secretária de classe baixa que, com seu modo simples e muito talento e ambição, ascende na hierarquia da Sterling Cooper. No entanto, ela serve como um duplo de Don Draper (e eu adoro a relação entre os dois personagens na série), já que possui um segredo do passado que pode implodir tudo que ela conquistou. E finalmente, Joan Holloway (o furacão Christina Hendricks) é um exagero de sensualidade que, aparentemente, é a personagem mais despreocupada da série. Contudo, com sutileza e com uma expressão fortíssima, deixa ver o peso que é ser reconhecida como sex symbol a todo o tempo.

Os diálogos de MAD MEN são um caso a parte e demorei bastante a me acostumar com o estilo, já que nem sempre são tão diretos e exigem que o espectador investigue o que há de não-dito naquelas falas – o que torna tudo muito mais interessante. No entanto, existem várias cenas (especialmente ao final dos episódios) com um personagem num quarto vazio, parado, olhando para o nada. Depois do turbilhão de emoções contidas que são apresentadas, são momentos especiais nos quais tanto o espectador quanto o personagem em si páram para analisar o peso e significação de tudo o que mostrado.

O último episódio da 2a temporada foi um exemplo perfeito disso e, até o início da 3a temporada no ano que vem, há bastante tempo para inferir a importância de tudo aquilo.

Há 1 Comentario para este artigo

Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó! diz:
03/26/2009

[...] escrevi bastante o que acho de MAD MEN. A série é um exercício de sutileza, onde a força do não-dito e da crítica social [...]

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