Rapidinhas
Rapidinhas um tanto atrasadas sobre os filmes da temporada de prêmios:

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? – Adoro a ironia de um filme passado em uma das mais das rebeldes ex-colônias britânicas ser dirigido por um inglês e ter a narrativa inspirada em Charles Dickens. Mesmo que continue achando estranho um ‘feel-good movie’ baseado quase que exclusivamente na série de sofrimentos do trio de protagonistas, não há como negar que a direção vibrante de Danny Boyle acaba seduzindo. O exotismo da Índia é o que garante um tom de fábula ainda mais autêntico ao filme – por mais que não exista praticamente nenhum ator ‘ocidental’, há uma forte sensação de olhar estrangeiro sobre a cultura do país. O tão criticado roteiro – que mostra cada pergunta do programa estilo ’show do milhão’ associado a um momento da vida do protagonista – se presta perfeitamente ao aspecto fantástico do filme, e só aumenta a mensagem de esperança e superaçãodo final. Inofensivo, porém simpático.
MILK – Não sou muito fã de biopics e não acho que Gus Van Sant dê muito certo no cinemão, por isso estava com o pé atrás com essa versão em cinema da vida de Harvey Milk. Felizmente, me surpreendi com sua vitalidade e com atuações apaixonadas de Sean Penn, Emile Hirsch e James Franco. O filme é liberal até o fio do cabelo, mas isso não impede que os personagens sejam vistos apenas como símbolos de um movimento – mesmo nos momentos mais quietos, MILK pulsa e emociona.
O LEITOR – Pavoroso, acho difícil ver filme pior esse ano. Kate Winslet dá alguma dignidade a uma personagem que é mais um artifício de roteiro do que alguém que realmente cause alguma coisa – empatia ou repulsa – na platéia. Achando que é um grande filme só porque trata de um grande tema, O LEITOR é um dos piores exemplos (só não consegue superar A VIDA É BELA em ruindade) da fetichização do Holocausto.
FOI APENAS UM SONHO – Aqui sim um filmaço, e mesmo sendo extremamente fiel ao romance (um dos mais cruéis que já li) o ritmo parece de teatro, lembrando muito os melhores momentos de QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?. É filme pra deixar os sentimentos em frangalhos, mostrando que existe coisa muito pior num relacionamento que um iceberg. Melhor trabalho de Sam Mendes.
DÚVIDA – Dizer que Meryl Streep está soberba é chover no molhado, mas por mais que os diálogos sejam ótimos, acho que faltou alguma fagulha para os temas explosivos desse filme pegarem fogo. O clima teatrão não atrapalha (exceto na cena final), mas por mais redondinho que seja, DOUBT não decola.
O LUTADOR – Eu ainda não vi trabalho ruim de Darren Aronofsky, o que é ainda mais impressionante pela variedade temática e de estilo em sua cinematografia. Nesse filme, o diretor deve ter assistido a muitos ‘irmãos Dardenne’ para conceber a narrativa crua e câmera na mão. Claro que Mickey Rourke de certa forma está fazendo o papel de si mesmo, mas isso só aumenta o valor de sua atuação. O melhor filme da temporada de prêmios.