Recentemente, terminei de ler o romance Shutter Island (ou Paciente 67, em português), de Dennis Lehane, que recebeu o tratamento cinematográfico de Martin Scorsese e será lançado no final do ano com um mega elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Patricia Clarkson, Max Von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer e Jackie Earl Haley.
Dennis Lehane é um ótimo escritor de histórias policiais cujo aspecto brutal geralmente vem acompanhado de uma humanidade que pega o leitor de surpresa. O autor também tem uma veia quase dickensiana, interessando em traçar um rico panorama social de suas tramas, com direito a pano de fundo histórico e um subtexto de choque de classes. A obra de Lehane já era bem popular, mas alcançou fama estelar depois que seu romance Mystic River foi filmado por Clint Eastwood, dando origem ao ótimo SOBRE MENINOS E LOBOS. Em 2007, outra obra do autor, Gone Baby Gone também teve uma adaptação muito bem-sucedida no filme MEDO DA VERDADE, de Ben Affleck. Lehane também é conhecido por roteirizar a espetacular série “The Wire”, onde abusa do talento de descrever e analisar a corrupção infiltrada na atmosfera urbana dos Estados Unidos.
Shutter Island/Paciente 67, no entanto, me parece o trabalho mais diferente da literatura de Lehane (e o autor mesmo admitiu isso em seu seminário da Feira Literária de Paraty que tive o prazer de assistir). O fascínio pelas razões mais perturbadoras que levam indivíduos a realizar crimes brutais está lá, assim como uma análise humana de suas consequências trágicas. Só que nesse romance o autor se distancia de sua característica literatura urbana e contemporânea para tratar de uma história que ocorre na década de 1950, em um hospital psiquiátrico localizado dentro de uma ilha.
A trama começa quando dois oficiais do governo (Teddy Daniels e Chuck Aule) partem para a ilha Shutter do título onde funciona o misto de prisão e hospital psiquiátrico Ashecliffe. Em Ashecliffe se encontram os pacientes mais violentos do país, responsáveis por crimes horrendos. No entanto, nesse local onde a fuga parece ser impossível, uma assassina esquizofrênica chamada Rachel Solando desaparece misterioramente sem deixar rastros. A missão de Daniels e Aule é descobrir o seu paradeiro.
À medida em que a investigação se desenvolve, contudo, uma terrível tempestade ocorre na ilha, deixando-a incomunicável com o mundo exterior. Alem do mais, Daniels e Aule começam a perceber que em Ashecliffe, nem tudo é o que parece, e a possibilidade de que terríveis experiências estejam ocorrendo no lugar coloca a todos sob suspeita. O clima de paranóia se instala e o desaparecimento de Rachel Solando passa a ser a menor das preocupações.
Shutter Island/Paciente 67 é uma interessante mistura de thriller com romance pulp, além de ser pintado com certas tintas góticas que remetem à literatura do século XIX. É um livro que prende a atenção desde a primeira página e funciona como excelente entretenimento. Não parece atingir o nível de profundidade psicológica a que poderia chegar, mas mesmo assim consegue ultrapassar os propósitos de um mero ‘romance B’. Isso se dá especialmente pela sua conclusão. Sem contar spoiler nenhum, é um final muito surpreendente, mas de que certa forma lembra alguns filmes que já vimos. O mais chocante é a explicação que acompanha o final, e aqui o talento narrativo de Lehane para descrever cenas fortes faz toda a diferença.
Mas como será que tudo isso vai ser narrado por Scorsese? Sem ver sequer um trailer, me parece que vai ser um cruzamento entre o estilo de OS INFILTRADOS e CABO DE MEDO, especialmente pelo elemento de suspense. Quem assistiu ou leu o espetacular documentário/livro UMA VIAGEM PESSOAL PELO CINEMA AMERICANO de Scorsese deve lembrar que o diretor é fã do cinema de Samuel Fuller, em especial de seu filme SHOCK CORRIDOR. Nessa obra, Fuller contava a história de um jornalista que vai investigar um crime em um hospício, mas acaba ficando louco. Shutter Island/Paciente 67 tem vários dos elementos de SHOCK CORRIDOR e acredito que Scorsese vai fazer uma bela homenagem a Fuller.

Sobre o elenco, DiCaprio me parece um ótimo ator para representar o espírito de histeria e claustrofobia vivenciado por Teddy Daniels (ele já o fez muito bem em O AVIADOR e DIÁRIOS DE UM ADOLESCENTE). Mark Ruffalo me parece perfeito para fazer o divertido porém misterioso Chuck Aule, e daí pode sair uma grande atuação. Ben Kingsley tem toda a pinta pra viver o misterioso diretor de Ashecliffe, e Michelle Williams… bem, sobre ela não posso falar porque senão acabo estragando uma surpresa central do livro.

Em resumo, Shutter Island/Paciente 67 é um thriller/suspense cujo objetivo central é o entretenimento, apesar de em alguns momentos esboçar a grandiosidade de outras obras mais complexas de Lehane. De acordo com algumas informações do set de filmagem, Scorsese parece que vai pegar pesado no tema da descontrução da realidade, e no limite entre o sonho, a loucura e o factual (e sabendo como o diretor é fã de DE OLHOS BEM FECHADOS de Kubrick, esse tópico lhe parece essencial).
Mal posso esperar para ver o filme SHUTTER ISLAND (que alguns dizem que vai se chamar ASHECLIFFE) e ver até que alturas Scorsese vai levar o romance de Dennis Lehane.
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