- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

Algo de podre?

Emile Hirsch

Estava demorando para o cinema apresentar mais uma versão de “Hamlet”, a obra máxima do teatro mundial. Existem alguns filmes legais e outros nem tanto sobre o príncipe dinamarquês de William Shakespeare. A próxima tentativa de transpor para as telas a fúria indecisa do do personagem parece que vai sair com Emile Hirsch atuando e Catherine Hardwicke dirigindo. Hardwicke, antes de fazer o chatíssimo CRESPÚSCULO, tinha mostrado bastante talento em AOS TREZE e OS REIS DE DOGTOWN (também com Hirsch). Mas “Hamlet”?

Estava disposto a dar um voto de confiança, até que li que o produtor quer “apresentar a história como um thriller de suspense, e tornar a história excitante e acessível ao público de hoje”. Acho “acessível”  um termo um tanto perigoso, principalmente se em “público de hoje” pensarmos em “público médio de blockbuster norte-americano”. A não ser que seja uma grande piada pós-moderna (como naquela hilária versão com Schwarzenegger em O ÚLTIMO GRANDE HERÓI), espero que Hardwicke não trilhe o caminho da idiotização. Não que eu amasse uma versão 100% fiel – adoro liberdades de estilo, contanto que  seja algo criativo.

hamlet laurenceolivier 250x225 Algo de podre? 24 quadros por segundo

Das versões cinematográficas de “Hamlet”, a primeira que realmente ficou famosa foi a de Laurence Olivier, considerado por muitos o maior ator shakesperiano de todos os tempos. Ele dirigiu e atuou, e de certa forma foi essa versão que fez ficar popular a idéia do príncipe vagando sem saber o que fazer com um ar meditativo. Eu particularmente achei bem chato.

hamlet-mel-gibson

Em 1990, Franco Zefirelli fez uma versão com Mel Gibson no papel principal. O mistério até hoje permanece se Zefirelli comeu cocô ou tomou chá de cogumelo antes de dar o maior papel do ocidente a um dos atores mais sofríveis do ocidente e oriente juntos. Além do mais, o filme corta o que não é pra cortar, acelera o que era pra contemplar, e usa e abusa dos psicologismos mais rasos pra tratar da relação de Hamlet com Gertrude. Aliás, só mesmo Glenn Close como a rainha se salva. E a cara de perdida da Helena Bonham Carter serve como alívio cômico.

lion king scar l 250x187 Algo de podre? 24 quadros por segundo

Em 1994, a Disney achou que “Hamlet” seria ótimo para criancinhas e lançou sua obra-prima – O REI LEÃO. De todas as referências à peça (da morte do pai e seu retorno como fantasma, do tio assassino, de Timão e Pumba como Rosencrantz e Guildenstern), pra mim a mais criativa é mostrar a clássica indecisão de Hamlet como algo divertido – as divagações sobre o “ser ou não ser” viraram o Hakuna Matata.

hamlet-branagh

Em 1996, Kenneth Branagh – o Olivier moderno – lançou sua ambiciosa versão de “Hamlet”, a minha favorita por vários motivos. O principal deles é que é a obra completa, e nem por isso o filme é chato (vi no cinema a versão trucidada pela Columbia, mas depois em VHS a original de 4 horas). A opção de transportar a história para o século XIX foi golpe de mestre, especialmente porque a questão da identidade nacional (assunto-chave do período) é um dos temas-chave da peça explorados por Branagh. A decisão de filmar em 70 mm também fez toda a diferença – até hoje é um dos filmes mais visualmente arrebatadores que já vi. E com seu elenco multi-estelar, (de Judi Dench a Billy Crystal, de Kate Winslet a Charlton Heston), Branagh retoma um ponto crucial da interpretação shakesperiana: pode um ator de formação contemporânea e não inglês atuar em “Hamlet” de forma convincente? Com esse filmaço, ele provou que sim.

hamlet 2000 01 249x161 Algo de podre? 24 quadros por segundo

Em 2000, é lançada uma versão de “Hamlet” dirigida por Michael Almereyda com Ethan Hawke no papel-título. É uma versão modernizada (a Dinamarca vira “Denmark Corporation” e o pai de Hamlet era um alto executivo), mas com os diálogos no original. Gosto de algumas sacadas dessa  visão contemporânea, especialmente o ‘to be or not to be’ sendo declamado na Blockbuster e o fantasma do pai de Hamlet que sai da máquina de refrigerantes. E Bill Murray como Polonius é brilhante. Aliás, em quantas versões de peças de Shakespeare a Julia Stiles esteve?A mulher estava em todas!

Gosto bastante do Emile Hirsch (NA NATUREZA SELVAGEM, enough said), mas essa coisa de deixar ‘acessível’ me parece um tanto estúpido. Vamos ver no que vai dar.

Amar foi minha ruína + Hamlet + Vale Tudo

Essa semana achei no Youtube uma jóia rara: o filme AMAR FOI MINHA RUÍNA inteirinho. O filme conta a história de Elen (Gene Tierney, belíssima), uma mulher cuja obsessão e ciúme pelo marido a leva a atos extremos e completamente loucos. A personagem de Tierney é daquelas vilãzonas que odiamos amar – a mulher mata o cunhado adolescente (e paralítico!) para ter a atenção do marido só pra si. Mesmo assim, como estamos em 1945, o casal dorme em camas de solteiro lado a lado.

leavehertoheaven 274x425 Amar foi minha ruína + Hamlet + Vale Tudo 24 quadros por segundo

AMAR FOI MINHA RUÍNA é uma mistura de filme noir com melodrama, e gosto da maneira como os atos mais malignos de Elen são realizados à luz do dia, com uma fotografia super-iluminada. Mesmo assim, vários dos diálogos são muito over e o clima dramalhão impera, mas isso se dá mais pelo estilo de fazer cinema, bem diferente do de hoje.

O título em português, AMAR FOI MINHA RUÍNA, é daqueles exagerados como não se fazem mais (acho que só perde para TARDE DEMAIS PARA ESQUECER). No entanto, o filme originalmente se chama LEAVE HER TO HEAVEN, numa referência interessantíssima a HAMLET. Na peça de Shakespeare, quando o fantasma diz ao jovem príncipe que foi assassinado, fica claro para Hamlet que seu tio é o culpado por ‘algo de podre no reino da Dinamarca’, mas não sabe até onde vai a culpa de sua mãe. O fantasma então diz: “leave her to heaven”, ou seja, “deixe-a para o céu” – o julgamento dos atos da rainha será feito apenas após a morte. Nenhum personagem de AMAR FOI MINHA RUÍNA diz essa fala, mas fica claro que a culpa pelas atrocidades orquestradas pela protagonista Elen será declarada também quando ela morrer.

Começando com o teatro de Shakespeare e passando pela Hollywood dos anos 40,chegamos à telenovela brasileira do final dos anos 80. Gilberto Braga, que gosta de fazer citações cinematográficas, fez uma bela homenagem a AMAR FOI MINHA RUÍNA em “Vale Tudo”, a melhor novela da história. A homenagem consiste na recriação da maior loucura de Elen no filme: doida de ciúmes porque vai ter de dividir a atenção e o amor do marido com o filho que tem na barriga, ela se joga da escada de sua casa para perder o bebê. E consegue!

Em “Vale Tudo”, outra vilã que que odiamos amar – a Maria de Fátima interpretada por Glória Pires – está grávida, mas descobre que seu marido é estéril. Ou seja, o filho é do amante! Pra se livrar da criança, ela também forja uma queda e desce rolando as escadas. Mas como Maria de Fátima tem estilo, ela cai da escadaria do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Compare as duas cenas: em AMAR FOI MINHA RUÍNA

… e em “Vale Tudo”:

Pós-moderno é isso aí! ;-)

Schwarzenegger + Hamlet

Mais uma junção de Hamlet com a cultura pop, dessa vez com Schwarzenegger fazendo o papel do príncipe da Dinamarca! Na verdade essa é uma das cenas de O ÚLTIMO GRANDE HERÓI, que como já falei aqui, é um filme que pelo visto só eu gosto.

“Há algo podre no reino da Dinamarca… e Hamlet está colocando o lixo pra fora!”

Hamlet + Animaniacs

Nesse vídeo hilário, os Animaniacs tentam traduzir pro inglês moderno a clássica ‘cena da caveira’ de Hamlet. A celebridade que eles tiram da cova (para ilustrar o tipo de pessoa que acha que vai ser jovem para sempre) é genial!