- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

Top 10 – Os filmes da minha vida

Esta lista representa mais do que os meus filmes preferidos – são os filmes da minha vida, aqueles que mudaram a minha própria atitude com relação ao cinema. Estou revendo todos eles, para logo depois colocar minhas impressões aqui.

5- BLADE RUNNER

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A EXPERIÊNCIA:

De todos os filmes da minha vida, BLADE RUNNER sem dúvida é o que mais vi e o que mais tem relação prática com decisões que tomei, especialmente no campo profissional. Isso se deu porque através dele entrei em contato com a literatura de Philip K. Dick e o livro que deu origem ao filme, “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. A partir daí, trabalhei como o filme+livro+autor (e outros livros de Dick) na minha especialização, no mestrado e no doutorado.

Provavelmente o filme que mais vi na minha vida, é curioso eu não lembrar exatamente da primeira vez que assisti a BLADE RUNNER. Vi em VHS, depois em dvd, depois no cinema duas vezes em relançamentos (uma experiência única), e até em sessões de debate  na universidade – mas quando tive um contato inicial com ele realmente me escapa. Eu me lembro que quando era pequeno ele costumava passar sempre no “Domingo Maior”, aquela sessão de filmes da Globo de domingo à noite. Como no comercial só passavam as cenas da Daryl Hannah de cara pintada dando uma chave de perna no Harrison Ford, ficava com medo de ver (e tinha que acordar cedo pra ir pra escola). E também construí uma idéia errada sobre ele, achando que era uma produção com muita ação.

Hoje quando me pego fazendo uma apresentação ou palestra sobre BLADE RUNNER, fico às vezes surpreso de ver como aquele filme do qual eu tinha medo hoje se tornou o mais presente em minha vida.

O FILME:

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Já falei e escrevi tanto sobre esse filme/essa história que fico até sem ter o que dizer. Quem quiser saber do filme numa perspectiva pós-moderna e historicista, que ache minha tese pela internet. Aqui eu queria falar apenas sobre o prazer estético que é assistir a BLADE RUNNER. Antes de mais nada, me surpreende que um filme tão denso seja capaz de entreter tanto. Diferentemente de 2001 – UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO (só pra ficar no terreno de clássicos da ficção científica), BLADE RUNNER não requer uma atitude contemplativa e intelectual do telespectador. Pelo contrário: é uma história com vários acontecimentos, crimes, amor, tiros, lutas, efeitos especiais e tudo mais que o cinema de entretenimento pode proporcionar. Mas fugindo do lugar-comum, consegue ainda assim discutir temas atemporais: a vida, a morte, as memórias, o corpo.

Tão famosas quanto BLADE RUNNER são as histórias por trás dele: das inúmeras versões, do perfeccionismo de Ridley Scott, do mau-humor de Harrison Ford, da impaciência dos produtores, do inicial fracasso comercial, seu posterior status cult e atual condição de clássico. Ainda tendo conhecimento de todas essas informações, aos primeiros acordes de Vangelis e o olho refletindo as chamas, tudo se desfaz.

Mesmo sendo um filme de 1982 (a versão original, eu digo), acredito que BLADE RUNNER seja um dos poucos (único?) filmes de ficção científica cujo futuro não ficou datado. “Como assim?”, gritam os  afoitos, “E aquela maquiagem e cabelos e ombreiras dos anos 80?!” Explico. Por ser um filme construído de inúmeras referências (METROPOLIS, HQs francesas, civilizações perdidas, teses futuristas de Syd Mead, film noir, romance policial, art deco,entre outros) BLADE RUNNER é um gigantesco quebra-cabeças estético e artístico (disse que não ia falar de pós-modernismo e não vou). Portanto, nada mais atual que assistir a um filme de ficção científica cujo futurismo remeta a diferentes estilos e épocas – sendo os anos 80 um deles.

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Também adoro ver um herói que não é herói (existe detetive mais incompetente que o Deckard de Harrison Ford?), o vilão que não é vilão (e ainda recita Blake!) e um cientista nada louco que coloca em cheque todo o racionalismo do ocidente em algumas frases. Ao mesmo tempo em que trabalha com esses grandes elementos de sua narrativa, BLADE RUNNER consegue ainda construir uma atmosfera única (onírica, simbólica, sinistra) com pequenos detalhes um tanto inexplicáveis, mas que fazem toda a diferença: o olho com reflexo vermelho dos replicantes, a língua pra fora de Pris quando morre, os bizarros brinquedos de J.F. Sebastian, Pris com os dedos no nariz de Deckard, os reflexos da luz numa água que não existe no salão da Tyrrell Corporation etc.

O filme todo parece caminhar para seu ápice na cena da morte de Roy Batty, um dos maiores personagens da história do cinema em imortal atuação de Rutger Hauer. Com um prego numa mão e uma pomba na outra (dá pra ser mais cristão que isso?), ele faz seu discurso final que não causaria espanto se estivesse na boca de Hamlet. Assim como aquele príncipe problemático da Dinamarca, a morte parece acompanhá-lo sem piedade, mas quando ele a encontra finalmente consegue a redenção desejada. “Time to die”.

BLADE RUNNER é daqueles filmes em que realmente se encontra algo novo a cada vez que se assiste – e tendo tantas versões, realmente nem é tão difícil. Fico feliz que hoje finalmente está tendo seu mais do que seu merecido reconhecimento. Um dos filmes da minha vida, e que também tornou meu trabalho e do meu estudo muito mais prazerosos.