- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

Dois filmes indies que prometem

Do recente Festival de Sundance existem dois filmes que chamaram muito a minha atenção e que desde já estou louco pra ver. Blue_Valentine

O primeiro é BLUE VALENTINE, que reúne um dos meus atores favoritos – Ryan Gosling – com a cada vez melhor Michelle Williams (vocês viram WENDY & LUCY? Ela dá show). Esse filme, dirigido por Derek Cianfrance, parece ser um 500 DIAS COM ELA depois do Rivotril: o roteiro acompanha o relacionamento de um casal desde o momento em que se conhecem até o término da relação, mas não em ordem cronológica, com um clima pra lá de deprê. As primeiras críticas dizem que BLUE VALENTINE é meio repetitivo, mas todo mundo afirma que o destaque realmente fica para o casal de protagonistas, arrasando nas atuações.

the kids are all right

O segundo filme que causou muito burburinho em Sundance é THE KIDS ARE ALL RIGHT, de Lisa Chodolenko. À primeira vista é o típico filme independente americano, com uma família problemática onde os filhos tem de encarar não só os dramas da adolescência mas também a crise de meia-idade suburbana dos pais. Só que nesse caso os ‘pais’ são duas mães: Julianne Moore e Annette Benning (vivendo um casal lésbico), que tem de enfrentar o reaparecimento do pai biológico (Mark Ruffalo) na sua vida e na de seus filhos (Mia Wasikowska e John Hutcherson). Alguns dizem que THE KIDS ARE ALL RIGHT é o novo PEQUENA MISS SUNSHINE, outros já afirmam que é um filme que vai servir como instrumento para ilustrar para o americano médio que não existe nada de assustador numa família gay.

Pela luta que os distribuidores travaram em Sundance para comprar os filmes, parece que eles tem tudo pra brilhar na temporada de prêmios.

SYNECDOCHE NEW YORK

synecdoche new york poster 347x425 SYNECDOCHE NEW YORK 24 quadros por segundo

Pode-se falar qualquer coisa de Charlie Kaufman, menos que o cara não tem ambição. Ele já colocou espectadores na cabeça de John Malkovich (QUERO SER JOHN MALKOVICH), já criou um irmão gêmeo que o ajudou a escrever seu próprio roteiro (ADAPTAÇÃO) e já falou das desventuras de querer apagar alguém de sua memória (BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS). Esses três roteiros, que são os seus mais famosos, casaram perfeitamente com o estilo pop e visionário dos diretores que lhes deram vida: Spike Jonze e Michel Gondry. Kaufman, no entanto, foi esperto o suficiente para dirigir ele próprio o seu roteiro mais grandioso e pessoal, que rendeu o melhor filme do ano passado (lançado nos Estados Unidos) e um dos melhores da década: trata-se de SYNECDOCHE, NEW YORK.

Nesse estudo sobre os limites da arte e da morte, acompanhamos a vida de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), um diretor de teatro que acredita estar morrendo. Ele é casado com uma pintora conceituada (Catherine Keener) com quem tem sérios problemas conjugais. Quando ela parte para Berlim juntamente com a filha do casal, Cotard é cortejado por uma assistente de bilheteria de teatro (Samantha Morton) e pela atriz principal da versão de “A Morte do Caixeiro Viajante” que está dirigindo (Michelle Williams). Cada vez mais desiludido e certo da morte iminente, ele resolve usar o dinheiro que recebe de uma fundação artística para realizar uma peça grandiosa, que pretende retratar a vida ‘de forma brutal’. A questão principal da peça é que ela é uma cópia em menor escala da cidade de Nova York, com atores tentando emular de forma fiel a vida real.

Já em seu título, SYNECDOCHE, NEW YORK insinua sua pretensão artística mas também sua peculiar ironia. ‘Sinédoque’ é aquela figura de linguagem geralmente associada à parte pelo todo, próxima da metonímia (como quando dizemos ‘O brasileiro é malandro’, mas na verdade estamos falando de todos os brasileiros). A brincadeira linguística aqui também tem a ver com Schenectady, cidade do estado de Nova York onde vive o protagonista no início do filme. A sinédoque mais direta do filme é a da gigantesca peça montada por Cotard, num armazém de tamanho colossal que reproduz, de certa forma, toda a cidade de Nova York. A outra sinédoque, essa mais sutil porém mais poderosa, é a de que Cotard é uma pequena parte de todos nós, e todos somos ele – aquela criatura frágil e cheia de idéias, em busca de amor e de sonhos, mas que ao final o único encontro certo que possui é com a morte.

Charlie Kaufman não está para brincadeiras aqui, e não é à toa que SYNECDOCHE, NEW YORK cita de Shakespeare a Harold Pinter, de Kafka a Arthur Miller – as ambições do roteirista/diretor em representar a vida e a morte através da arte passa pelos mesmos propósitos dos mestres da literatura e do teatro. No entanto, ele não joga esses nome em vão, e nem quer apenas parecer culto – suas intenções aqui são de produzir uma estrutura intrincada que quer ser a própria representação da existência. É um filme de símbolos (não é à toa que Cotard pensa em chamar sua peça originalmente de ‘Simulacro’) que nem sempre remetem a um sentido original – ou, se o faz, é de forma comicamente perturbadora. Os melhores exemplos disso são a casa onde vive Hazel (Samantha Morton), que está eternamente em chamas mas mesmo assim habitada; ou o mundo fora do armazém onde se encena a peça de Cotard, que parece estar passando por uma espécie de guerra química.

Philip Seymour Hoffman como Cotard (e não haveria melhor nome para um personagem tão perturbado pela idéia da morte) tem a melhor interpretação de sua carreira, o que não é pouca coisa. Especialmente considerando que a história compreende um período de décadas, é fascinante ver como o personagem passa de um estado de desilusão, depois furor artístico, e finalmente placidez, diante da condição de ter se tornado uma criação de sua própria obsessão. O elenco feminino que orbita em torno de Hoffman é algo de sonhos: além da sempre brilhante Samantha Morton, Catherine Keener e Michelle Williams, o filme ainda conta com Emily Watson, Jennifer Jason Leigh e Dianne Wiest (divina, com um personagem-chave para interpretar as diferentes camadas da história).

Há muito tempo não via um filme que me fizesse pensar nele por semanas, e só escrevo esse texto depois de ver SYNECDOCHE, NEW YORK mais de uma vez,  já que sua riqueza temática e o talento de sua realização é um exemplo de vigor raro no cinema americano atual. É uma obra sobre grandes temas, mas cuja sensibilidade acaba fazendo das minhas (e também das suas) angústias e desejos a matéria-prima de sua história. Não seriam elas, de certa forma, também a matéria-prima da vida?