- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

DISTRITO 9

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Um dos conceitos mais básicos da ficção científica é pegar um tema de impacto social importante e colocá-lo sob uma perspectiva fantástica, causando assim um distanciamento e ao mesmo tempo lançando uma nova luz sobre a questão. Dos filmes de ficção científica contemporâneos, certamente DISTRITO 9 é o que utiliza esse conceito com mais talento.

Na verdade, essa produção de Peter Jackson, dirigida por Neil Blomkamp trata de forma bem direta um dos temas mais caros ao gênero: a alteridade, ou seja, a questão do outro. Seres extraterrestres são sempre a bola da vez quando o assunto é alteridade, sejam eles malvadões (ALIEN) ou bonzinhos (E.T.). O que DISTRITO 9 traz de original é enfatizar o aspecto desumano do homem quando lida com extraterrestres que, sem poderem retornar ao planeta de origem, acabam vivendo na Terra como refugiados. E, ironia das ironias, fixam residência exatamente na África do Sul. Felizmente, a questão do apartheid não é mencionada nenhuma vez durante o filme, o que tornaria a alegoria ainda mais óbvia. Pelo contrário, o tom documental da primeira hora de produção parece querer esconder as sutilezas do roteiro e das declarações de ‘especialistas’ que falam da presença alienígena em Johanesburgo.

A temática do tratamento do ‘outro’ e esse ‘outro’ ser de outro planeta é tão forte que DISTRITO 9 em seus primeiros 40 minutos apenas explica a situação como se fosse um documentário (e aí é praticamente igual ao curta-metragem que lhe deu origem). Praticamente todas as questões da vida ‘à margem’ são tratadas, desde os nomes pejorativos dados aos extraterrestres até a perfeita caracterização da vida na favela. O filme parece que vai se dar ao luxo de não ter uma narrativa usual, mas eventualmente uma história toma forma quando um dos chefes da MNU (Multi-National Corporation, cujo emblema é igual ao da ONU), empresa responsável pela retirada dos extra-terrestres para uma espécie de campo de refugiados, sofre um grave acidente.

Mais sobre o enredo não dá pra dizer sem estragar algumas surpresas. Mas posso revelar que, a partir daí, DISTRITO 9 se torna um tanto convencional, com direito a perseguições, alianças inesperadas e explosões. Contudo, o filme permanece fascinante em grande parte pela notável atuação do protagonista Sharlto Copley e pelo visual ultra-realista (em especial os alienígenas, um primor de efeitos especiais).

Mesmo deixando um gancho para uma possível continuação, me surpreendeu como o filme tem uma perspectiva pessimista. O final é de deixar qualquer um arrasado, mas faz pensar bastante não no que o homem costuma fazer com grupos de ‘outros’ que não entende, mas o que faz com ele mesmo.

Top 10 – Cenas da década

Com a década faltando pouco pra terminar (estou torcendo pra 2010 ser melhor que 2009 em termos de filmes), já podemos falar das cenas mais marcantes dos anos 2000, não é? Aqui vão as minhas preferidas:

10- Rebekah Del Rio canta “Llorando” em CIDADE DOS SONHOS

Um dos grandes temas do cinema contemporâneo é a questão da manipulação da realidade, e talvez nenhuma cena apresente um questionamento mais profundo sobre o assunto do que esta. Dá pra escrever um compêndio só sobre estes breves minutos: a queda da cantora,  o playback, a reação das protagonistas, a caixa azul. Mas mesmo que isso não importasse, só a música já torna esse momento do filme inesquecível.

9- Final de ANTES DO PÔR-DO-SOL

Começando com a valsinha cantada por Julie Delpy até sua dancinha com “Baby, You’re gonna miss that plane”, é um dos finais de filme mais perfeitos que existem.

8- Elephant Love Medley em MOULIN ROUGE

De todas as cenas musicais do filme de Baz Luhrmann, essa é a mais marcante porque é a que melhor retrata um dos motes principais do filme (usar músicas contemporâneas pra falar de uma história de amor num século XIX imaginário). De Bowie a Phil Collins, de U2 a Paul McCartney, é o atestado de que o verdadeiro amor mesmo que inevitavelmente cafona é extremamente sincero.

7- O beijo do reencontro em BROKEBACK MOUNTAIN

Mesmo que antes da cena os protagonistas já tenham tido uma noite na cabana, é a urgência do sentimento nesse reencontro que acabou ficando marcado como exemplo máximo do amor entre Jack e Ennis. Não tem como negar que o filme é um dos símbolos da crescente aceitação às relações gays nessa década, e a cena funciona como um marco dessa mudança.

6- A Noiva versus os “Crazy 88″ em KILL BILL

Roupa amarela, sangue esguichando, máscaras de “Besouro Verde” e Japão de mentirinha. E no meio disso tudo, as lutas mais loucamente coreografadas. Essa cena é como se o público fosse lançado dentro do oceano de referências de Quentin Tarantino. Pode até haver sequências de lutas melhores nessa década, mas nenhuma é mais criativa.

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