Top 10 – Os filmes da minha vida
Esta lista representa mais do que os meus filmes preferidos – são os filmes da minha vida, aqueles que mudaram a minha própria atitude com relação ao cinema. Estou revendo todos eles, para logo depois colocar minhas impressões aqui.
6- CONTA COMIGO

A EXPERIÊNCIA:
Diferentemente da maioria das pessoas que são apaixonadas por CONTA COMIGO, não assisti ao filme na ‘Sessão da Tarde’ da Globo quando era criança. Sempre ouvia falar do filme, mas numa mistura de falta de interesse e oportunidade, nunca o assistia quando passava nas tardes que enormes prazeres me proporcionou com OS GOONIES, TE PEGO LÁ FORA e tantos outros.
Já adulto, num fim de tarde de domingo sem nada pra fazer, começo a assistir então CONTA COMIGO na HBO. Pra começar, acho estranho um filme relativamente antigo passar no canal, assim de repente. Quando termino de ver – e muitos fãs do filme se sentem da mesma maneira – dá uma sensação de tristeza e perda tão grande, associada ao pensamento de que a vida é realmente algo fugaz, e de que são poucos os que realmente nos compreendem. O filme passou de novo seis horas depois na HBO2 e eu assisti novamente, e mais pensativo fiquei. Atualmente, é um filme que evito ver porque mexe muito comigo. Filmes sobre amizade em geral tem um efeito muito forte sobre mim. No caso de CONTA COMIGO, sendo o melhor filme já feito sobre esse tema, acho melhor rever apenas quando preciso colocar a minha vida em perspectiva.
O FILME:

Baseado no conto “The Body” de Stephen King, CONTA COMIGO é um caso notório de história ‘coming of age’, onde os personagens principais passam uma jornada física e emocional. Ao final da jornada, quando aprendem mais sobre si mesmos e o mundo, é que conseguem ultrassar a barreira provinciana que parece confiná-los em um mundo de mediocridade.
No filme, esse mundo é retratado pela cidadezinha de Castle Rock (que depois daria nome à produtora de Rob Reiner). Típica cidade do interior dos EUA do final dos anos 50, é lá que os amigos Chris, Gordy, Vern e Teddy vivem no mundo de garotos de doze anos: fumando escondido, jogando cartas, falando de garotas e super-heróis, e se xingando para esconder a profunda amizade que nutrem um pelo outro. Quando decidem partir na busca do corpo de um menino desaparecido, suas histórias de vida se revelam lentamente diante de si e do grupo, para formarem uma espécie de tapeçaria que esconde os medos, decepções e pequenas alegrias que formam a identidade de qualquer jovem em formação.
Uma das principais qualidades do filme é a simplicidade em que se desenvolve a história, sem atropelos e grandes reviravoltas. Há uma sub-trama envolvendo um grupo de ‘rebeldes sem causa’ liderados por Kiefer Sutherland (em fenomenal atuação) que vai ser importante no fim do filme, mas em nenhum momento o roteiro perde o foco dos seus quatro protagonistas e seu lento mas marcante processo de aprendizagem enquanto caminham juntos pela linha do trem – uma metáfora visual simples mas extremamente eficiente.
À medida em que caminham nessa pequena aventura que vai durar dois dias, aprendemos mais sobre o contexto familiar e psicológico de cada um deles. Vern (Jerry O’Connell) é um garoto um tanto inocente e assustado a quem o sentido das coisas geralmente escapa; Teddy (Corey Feldman), é um menino agitado que idolatra o pai veterano da 2a Guerra Mundial, mesmo que ele depois tenha enlouquecido e ferido o próprio filho; Chris (River Phoenix) é o líder do grupo, vindo de uma família desestruturada e com fama de ladrão; e Gordy (Will Wheaton) é um garoto sensível, traumatizado pela morte de seu irmão mais velho (pequena mas marcante participação de John Cusack) e ignorado pela família.

A história do filme é narrada por Gordy quando adulto, personagem de Richard Dreyfuss. A narração em off, claramente literária e que de vez em quando explica alguns momentos desnecessários, contudo, não incomoda porque todo o filme tem uma atmosfera de ‘história de aventuras’ sobre ele, como se estivéssemos ouvindo mais uma narrativa exagerada de um amigo. E a própria questão da narrativa é um elemento central do filme, já que Gordy tem pretensões a escritor e vive inventando histórias bastante apreciadas pelos seus amigos.
CONTA COMIGO se dá ao luxo de ter uma dessas pequenas narrativas dentro do filme, como se fosse um curta-metragem: é a história do jovem Lardass e de como, através de uma competição de tortas, ele se vinga da cidadezinha onde vive. Esse segmento de CONTA COMIGO, apesar de relativamente curto, não só coloca o talento narrativo de Gordy em perspectiva mas também ilustra o forte sentimento de exclusão que sente com relação ao mundo (”Eu sou estranho?”, ele pergunta a Chris). A sequência de “Lardass”, apesar de ter um tom totalmente diferente do restante do filme (parece John Waters) é divertidíssima, como se fosse uma versão light (porém não menos nojenta) de CARRIE, do mesmo Stephen King.
CONTA COMIGO, contudo, não teria metade de sua força dramática se não fosse a vitalidade de seus jovens atores e o talento de Rob Reiner para dirigi-los. Todos não são menos que excelentes, mas o destaque é sem dúvida River Phoenix. É impressionante como ele incorpora visivelmente a função de líder do grupo, mas deixa transparecer uma sensibilidade que torna o o personagem mais vivo que todos os outros. Juntamente com O PESO DE UM PASSADO, é uma das grandes atuações desse notável ator que a tragédia quis que infelizmente tivesse uma carreira curta demais. Há uma maturidade nos olhos de River Phoenix, especialmente em suas cenas com Will Wheaton, que justificam grande parte da tristeza que sentimos ao fim do filme. A cena em que seu personagem conta a história do roubo na escola e sua decepção com a professora me faz chorar toda vez, e mostra que ali existe realmente uma criança cuja ilusão foi destruída. Talvez seja a cena central do filme e que ilustra em poucos diálogos o processo de amadurecimento do personagem, mesmo que para isso tenha que revelar, em meio às lágrimas, sua inocência.
Há em CONTA COMIGO uma história simples com personagens complexos, onde em um instante podemos estar diante das maravilhas da infância (a discussão sobre que animal é o Pateta é impagável) ou da inescapável amargura que a segue. Assim, permanece uma das produções mais adoradas do cinema e se tornou um dos filmes da minha vida.




