Biscoito Fino
Enquanto a mera menção da palavra ‘poesia’ é capaz de causar arrepio de pavor em alguns, outros conseguem se deliciar nessas obras em verso hoje relegadas ao segundo plano devido a nossa necessidade de mil narrativas. Se o negócio é vender discos então, trabalhar com poesia parece suicídio.
Pelo visto não para dois dos meus artistas favoritos: Rufus Wainwright e Natalie Merchant. Ambos estão lançando discos esse mês que fazem referências a obras poéticas célebres, mas também desconhecidas. É claro que os álbuns não pretendem ser número 1 da Billboard, mas é legal que mesmo numa época que em a morte do CD já é mais do que uma realidade, ainda existam gravadoras capazes de se aventurar em projetos tão autorais e ambiciosos (Cauda Longa, anyone?)
O disco de Rufus Wainwright, All Days are Nights: Songs for Lulu, é todo com canções de piano e voz, em que o cantor fala de temas bem pessoais como o relacionamento com a irmã Martha e a morte da mãe. Contudo, chama atenção no álbum a presença de sonetos de Shakespeare musicados por Rufus: são eles os sonetos 10, 20 e 43. São belíssimas composições melódicas que reforçam o amor do bardo inglês pelo “master-mistress of his passion”.

Já Natalie Merchant, em seu álbum duplo Leave Your Sleep, escolheu trabalhar com poemas poucos célebres de escritores do século XIX e início do século XX, como Gerard Manley Hopkins e E.E. Cummings. O disco chama a atenção pela variedade de ritmos (jazz, baladas irlandesas, melodias japonesas) e pela voz de Merchant, que está ficando melhor com o tempo.
Duas jóias que são biscoito fino no feijão com arroz diário lançado pelas gravadoras.