3- A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

A EXPERIÊNCIA:
Lá estou eu, com 13 ou 14 anos, indo ao cinema toda a semana. Via qualquer coisa, pelo prazer de descobrir novas histórias. Assisti a esse filme no cinema na semana seguinte a VESTÍGIOS DO DIA, que tinha gostado bastante. Quando comprei o ingresso, a moça da bilheteria me disse: “o pessoal tá dizendo que esse filme é chato, saem até no meio.” Mal sabia ela que eu já tinha lido tudo que podia sobre ele e estava ansiosíssimo pra assisti-lo.
Mas na verdade não sabia da maior surpresa que me esperava: estava indo assistir ao meu primeiro filme de Martin Scorsese. E desconhecia essa história de Scorsese ser associado a filmes violentos. Quando vi aqueles movimentos de câmera, enquadramentos e travellings (claro que na época não sabia esses nomes) lembro de pensar: “então pode se fazer isso num filme???” Foi realmente das experiências em cinema mais mágicas que tive, quase que sozinho naquela sala mas sendo inundado por aquela tela que de repente se tornava completamente amarela, ou aquela sofisticação que jamais tinha visto em qualquer filme. Hoje quando me deito e sempre olho pro pôster de A ÉPOCA DA INOCÊNCIA sobre a minha cama antes de dormir, penso que talvez não soubesse que naquele momento estava assistindo a um dos filmes da minha vida.
O FILME:

Acho curioso que hoje quando se discute a carreira de Martin Scorsese costuma-se colocar A ÉPOCA DA INOCÊNCIA como apêndice. Esse é o destino de seus filmes ditos ‘diferentes’, como KUNDUN ou ALICE NÃO MORA MAIS AQUI. Mas esse ‘diferente’ pouco tem a ver com a qualidade das obras desse que é maior cineasta vivo. Na verdade, esses filmes não se enquadram naquilo que notoriamente é conhecido como seu estilo: a violência. Suas três obras-primas indiscutíveis (TAXI DRIVER, TOURO INDOMÁVEL e OS BONS COMPANHEIROS) são filmes que não poupam o espectador de sangue, tiros e porrada. Mas como pode um diretor assim dirigir um filme que conta uma história de amor proibido na sociedade nova-iorquina em meados de 1870? A resposta deixo com o próprio Scorsese: “A ÉPOCA DA INOCÊNCIA é um dos filmes mais violentos que já fiz”.
Quando se vê a chacina orquestrada de Travis Bickle ao final de TAXI DRIVER ou as cenas das lutas de boxe em TOURO INDOMÁVEL, é fácil esquecer que a principal violência realizada por (contra?) aqueles personagens é a que surge do contraste extremo entre suas identidades conflitantes e um mundo que não as tolera. Se tomarmos esse ponto de partida para praticamente todos os filmes de Scorsese, nenhum é mais bem-sucedido que A ÉPOCA DA INOCÊNCIA.
Baseado no épico de minúcias de Edith Wharton (que depois se tornou também um dos livros da minha vida), o cineasta tece uma história de amor complexa tendo como pano de fundo a Nova York de meados do século XIX. A paixão que surge entre Newland Archer (Daniel Day-Lewis) e Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) é o elemento revelador que eclode no meio de uma sociedade que vive de máscaras. Um amor que não só precisa ser escondido, mas destruído. Newland é um advogado respeitável, noivo de uma das moças mais puras e respeitáveis que se pode conhecer, May Welland (Winona Ryder). Mas com a chegada na cidade da prima de May, a Condessa Olenska, as certezas de Newland se abalam, assim como o verniz de decência que sustenta todo um imenso universo de aparências.
Scorsese capta com perfeição uma das temáticas centrais da literatura de Edith Wharton (e de seu ‘mestre’ Henry James): o contraste entre uma Europa ‘corrompida’ e uma América ‘pura’. A Condessa Olenska representa para os abastados nova-iorquinos do século retrasado algo entre o excêntrico e o intolerável. A maneira com que fala com homens abertamente, o fato de morar numa rua que não é da moda, ou até mesmo chegar atrasada a um baile são crimes horrendos para um mundo que preza suas convenções. Uma das grandes escolhas do filme é mostrar essa atmosfera de duas formas aparentemente paradoxais, porém complementares: ao mesmo tempo em que ilustra a hipocrisia reinante no âmago dessas normas, ele se deleita nos inumeráveis prazeres que ela apresenta. Juntamente com O LEOPARDO e BARRY LYNDON, A ÉPOCA DA INOCÊNCIA é um dos filmes mais requintados da história do cinema, com uma sofisticação que beira a extravagância. Já se tornou famosa a história de que havia um coreógrafo só pras cenas de jantar, e de que muitas das louças usadas são originais do período. Scorsese filma essas reuniões sociais (bailes, jantares, salões para os cavalheiros) como microcosmos de uma realidade alheia aos sentimentos e orgulhosa de suas regras.
Tais regras são um peso para Ellen Olenska, acostumada com a vida de artistas e boemia de quando morava na Europa. A própria presença dela é ao mesmo tempo é um escândalo e um perigo, já que ela está à beira de um divórcio (praticamente um suicídio social). Michelle Pfeiffer, em uma de suas atuações mais notáveis, representa com gestos que se tornam cada vez mais contido o desespero contido de um animal enjaulado. Até seus sorrisos são tristes e enigmáticos, só sendo compreendidos por Newland, ao mesmo tempo seu confidente e amante. Daniel Day-Lewis tem aqui o difícil papel de servir de elo entre várias esferas: a da liberdade e a da repressão, a das regras e a da liberdade, a da aceitação e a da rebeldia. Com seu tom de voz quase sempre deixando ver uma amabilidade forçada e um andar severo mesmo nos momentos mais distraídos, o ator lentamente constrói seu personagem até que possamos notar as várias camadas por trás daquela figura tensa e meticulosa.

A surpresa aqui fica por conta de Winona Ryder como a virginal May. Única do elenco a ser indicada a vários prêmios (ganhou o Globo de Ouro mas perdeu o Oscar pra Anna Paquin), a atriz durante grande parte do filme parece ter uma nota só. Contudo, é apenas quando é feita uma grande revelação sobre sua personagem (que acontece de forma tão brilhantemente sutil que se corre o risco de não se perceber) é que podemos admirar o detalhismo de sua atuação. O trio de protagonistas, apesar de poucas cenas juntos, realiza um trabalho perfeito na dificílima composição pra um filme de época tão perfeccionista.
Essa atenção a detalhes faz parte não só dos atores mas também a um dos mais espetaculares grupos de realizadores colocados por trás de qualquer filme. Simplesmente, estão reunidos em A ÉPOCA DA INOCÊNCIA os melhores de sua área: edição de Thelma Schoonmaker, fotografia de Michael Ballhaus, trilha de Elmer Berstein, direção de arte de Dante Ferretti, figurinos de Gabriela Pescucci (vencedora do Oscar) e créditos iniciais de Saul Bass. São diferentes elementos que tornam o filme não só uma experiência dramática mas também sensorial.
O que mais me chama a atenção em A ÉPOCA DA INOCÊNCIA é como as escolhas de Scorsese como diretor em muito enriquecem o vasto simbolismo das imagens. As metáforas com as cores (dos vestidos, dos salões) são as mais notáveis, assim como inundar toda a tela com uma determinada cor para realçar um elemento da história. A cena do baile inicial é uma afronta de tão bem dirigida, em que a câmera ‘dança’ pelo salão sem cortes, apresentando várias das figuras mais conhecidas da sociedade nova-iorquina (acompanhada da deliciosamente irônica narração em off de Joanne Woodward). Os momentos passados na ópera também são de tirar o fôlego – a cena em que Michelle Pfeiffer passa o leque por sobre o auditório talvez seja a minha favorita em qualquer filme.
Porém, os momentos mais marcantes são aqueles que ilustram o amor de Newland e Ellen. Scorsese de utiliza de inúmeros recursos cinematográficos para ilustrar ao mesmo tempo a força e a impossibilidade daquele sentimento. Adoro particularmente as partes em que a câmera fecha no casal, e todo o resto da tela escurece. Ou quando todos os sons são abafados e só podemos ouvir o diálogo dos dois. As cenas mais comentadas, contudo, são aquelas em que Newland e Ellen tem um breve momento de intimidade – tirar uma luva equivale a tirar a roupa inteira, e a sexualidade explosiva desses momentos é conduzida com uma sensibilidade que por muito tempo se achou impossível para um cineasta como Martin Scorsese.
A ÉPOCA DA INOCÊNCIA é um filme sofrido e, quando ele termina, sinto um grande aperto. É como se existissem elementos invisíveis me oprimindo, assim como aqueles que Newland Archer só vai visualizar claramente ao final da história. Chego a pensar se até mesmo a conclusão do filme não seria a melhor possível para esses personagens, que tanto foram aprisionados durante suas vidas. Seja como for, A ÉPOCA DA INOCÊNCIA moldou não só grande parte do meu gosto para cinema mas também uma abordagem com relação à vida. Amo esse filme.
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