- O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

Spike Jonze ‘auteur’ ganha perfil no NYT

jonze-where-the-wild-things-are-nyt

A revista do New York Times do próximo domingo faz um perfil longuíssimo (7.600 palavras) sobre Spike Jonze, enfatizando obviamente os bastidores da produção de WHERE THE WILD THINGS ARE. Chamado de ‘auteur’ pela revista (o termo pelo visto não está tão fora de moda assim), há no artigo várias informações interessantes sobre a carreira do diretor e sobre o filme em si. Algumas delas que me chamaram atenção:

spike-jonze-nyt

- O processo de produção de WHERE THE WILD THINGS ARE já dura mais de uma década, com vários diretores envolvidos.

- Jonze já esteve perto de dirigir uma outra obra de Maurice Sendak, mas na época o estúdio achou suas idéias loucas demais.

- Ele já está perto de fazer 40 anos!

- Sofia Coppola foi quem entrou em contato com John Malkovich para que ele se encontrasse com Jonze e ser feito o convite para participar de QUERO SER JOHN MALKOVICH.

- Aliás, QUERO SER JOHN MALKOVICH quase teve sua produção cancelada. O que salvou o filme foi a troca dos executivos da Universal.

- O artigo apresenta algumas curiosidades interessantes sobre a produção do clipe de “Sabotage” (clipe favorito #13), umas das obras-primas de Jonze.

- O tema central do artigo, como não poderia deixar de ser, é a suposta briga entre o diretor e a Warner pelo corte final de WHERE THE WILD THINGS ARE. O manda-chuva da Warner realmente confessa que se Jonze tivesse saído da produção, as coisas teriam sido mais fáceis. No entanto, nega que quisesse demití-lo.

- De acordo com a jornalista que escreveu o artigo – que assistiu ao filme – a principal razão da briga entre Jonze e a Warner não foi porque o filme é ‘dark demais’, como muitos na época noticiaram. Na verdade, o ‘problema’ do filme seria que ele não tem um roteiro bem definido, com um enredo com começo, meio e fim. É um filme que se baseia basicamente em sensações, o que foge do esquema de produções juvenis.

- Spike Jonze diz que uma de suas inspirações pro filme foi o diretor John Cassavetes.

- Jonze foi convidado para dirigir a continuação de ACE VENTURA, mas felizmente recusou!

- Um aspecto que não tem a ver com Spike Jonze mas que achei curioso: o artigo cita como fontes vários sites de fanboys como Slashfilm, CHUD e FirstShowing. Sinal dos tempos?

Top 10 – Clipes bizarros

A criatividade ao se fazer um videoclipe às vezes é tamanha que o diretor/artista às vezes enchem a produção de referências tão diversas que o resultado acaba sendo bizarro. Os vídeos abaixo são um exemplo disso. Na verdade, são bizarrices do bem – que mesmo sendo assustadoras, poéticas ou até mesmo doidas mesmo, acabo gostando.

10- BLACK HOLE SUN (Soundgarden)

O diretor Howard Greenhalgh, que já é famoso pelo visual alucinante de vários clipes dos Pet Shop Boys, fez desse vídeo um dos mais famosos dos anos 90 com sua descrição exagerada da loucura suburbana. O clipe é como se fosse um BELEZA AMERICANA com ácido. Algumas imagens são realmente perturbadoras, como a da mulher cortando o peixe ainda vivo. Mas tudo é engolido pelo grande buraco negro que anuncia o fim daquela sociedade kitsch-decadente. A banda tocando com as nuvens passando rápido por trás está entre as imagens mais famosas do videoclipe.

9- NOTHING REALLY MATTERS (Madonna)

Madonna – Nothing Really Matters

É mais uma instalação de arte contemporânea do que um clipe, e o próprio cenário denota isso. Madonna encarna uma geisha pós-moderna enquanto um monte de japoneses fazem a ‘epilep-dance’. Os figurinos de Jean-Paul Gaultier são um arraso. Não faz muito sentido, mas é só mesmo pra admirar o espetáculo visual. E adoro o início do clipe, com o bebê que é um saco plástico estiloso.

8- EVIL (Interpol)

Eu morro de medo de bonecos, por isso poucas vezes consegui ver o clipe de “Evil” por inteiro. Começa com um acidente de trânsito, e uma das vítimas é um boneco meio fantoche com uma cara assustadora. E ele ainda canta a música toda! O final do clipe com ele dançando em cima da cama do hospital é um pavor, mas acho engraçado como acaba combinando com a música.

7- PARANOID ANDROID (Radiohead)

É como se fosse um Beavis e Butt-Head doentio. Tem horas que parece que é pra ser engraçado, mas o resultado é sinistro. A animação é um tanto enigmática, com referências sexuais que beiram a perversão mas que os dois protagonistas do clipe parecem não perceber devido a uma inocência suspeita. Não sei se tem alguma história pra ser entendida, mas não dá pra parar de ver.

6- TRIUMPH OF THE HEART (Bjork)

Bjork – Triumph Of The Heart

Poderia ter feito essa lista só com clipes da Bjork, mas escolhi esse aqui pra representar o conjunto da obra. Nessa espécie de comédia romântica bizarra dirigida por Spike Jonze, o fato de Bjork ser casada com um gato (o animal mesmo) é o que menos assusta. E o que é aquela dancinha do final?

Read more »

A coisa mais fofa que você vai ver essa semana

Trailer Reaction from We Love You So on Vimeo.

Com a Warner morrendo de medo que as crianças vão se assustar e sair gritando do cinema com os monstrinhos de Spike Jonze em WHERE THE WILD THINGS ARE, foi feita uma experiência: mostrar o trailer a uma criancinha mega-fofa e ver a reação. E não poderia ser mais positiva! Ninguém precisa de Roger Ebert depois de uma crítica dessas.

via Buzzfeed

1999 – O Ano que não terminou

Estamos em 2009 e há exatos 10 anos atrás o cinema norte-americano (mas não só ele) viveu uma fase de ouro. Os filmes lançados em 1999 foram os que realmente marcaram uma nova visão temática, narrativa, e até mesmo de propaganda para a Hollywood do século 21. No drama, no suspense ou na ficção científica, muitos dos filmes que assistimos nesses anos “OO” (alguém vai inventar um nome melhor pra essa década?) são herdeiros das principais produções de 1999. Vamos a elas:

MATRIX

wp content uploads 2008 11 neo 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando eu vi: Saí do cinema achando um filme de ação bem legal, especialmente o uso do slow motion nas cenas de ação e do kung fu coreográfico.

O que eu acho hoje: Por mais que eu goste do filme, ainda assim não acho toda essa maravilha a ponto de chamar de clássico. Mas só o fato de ser uma ficção científica com idéias realmente originais vale a pena. Sua proposta de “Baudrillard para as massas” é ótima, além das trocentas referências à filosofia e à literatura.

A influência: A indústria de casacos de vinil, couro preto e óculos escuros tem muito que agradecer aos irmãos Wachowski. Agora falando sério, as cenas de ação nunca mais foram as mesmas: todo filme de fundo de quintal agora tem ‘wire-fu’ e  balas de revólver que deixam um rastro no ar com muito bullet time.

BELEZA AMERICANA

16931  american l 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Assisti numa pré-estréia, em um dia muito especial. Saí do cinema pensando “como um filme que começa com uma cena de masturbação é o favorito ao Oscar?” Gostei de tudo o que vi e fiquei particularmente impressionado com os personagens de Wes Bentley e Annette Benning. E a surpresa com o Chris Cooper, como tudo mundo.

O que acho hoje: Continuo gostando bastante, mesmo que a desconstrução de alguns estereótipos da sociedade norte-americana acabassem gerando outros. E é interessante pensar como todo o filme é totalmente positivo em relação aos seus protagonistas masculinos e bem crítico com os personagens femininos. No entanto, os diálogos de Alan Ball permanecem impagáveis e a qualidade das atuações (até mesmo Mena Suvari!) é ponto alto.

Influência: O Oscar mudou muito a percepção sobre o filme. Eu sou da opinião que é o filme mais “não-Oscar” a receber a estatueta desde O SILÊNCIO DOS INOCENTES. No entanto, hoje muita gente torce o nariz, chegando a dizer que é um dos piores vencedores do Oscar da história (ninguém viu CRASH?). No entanto, é fato que não haveria ‘filme de subúrbio palatável’ (já que os de Todd Solondz são muito ‘hard’ para as massas) sem BELEZA AMERICANA, muito menos “Desperate Housewives”.

CLUBE DA LUTA

fight club1 283x425 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Esperava um filme de muita porradaria, mas me surpreendi com as idéias e o visual escalafobético de David Fincher. Nem sonhava com aquela reviravolta no meio, e a cena final é pura poesia pré-Davos.

O que acho hoje: Acho que talvez seja o filme mais representativo do mundo contemporâneo. Algumas das idéias que aparecem truncadas em MATRIX, são muito bem apresentadas aqui. Continuo achando que depois que se forma aquela organização terrorista no meio do filme a história cai um pouco. Mesmo assim, não tira o mérito de ser o melhor filme de Fincher.

Influência: Teve gente criando “clubes da luta” de verdade – ou seja, devem ter visto outro filme! Fracasso de bilheteria, não lembro de ninguém tentando imitar seu estilo.

O SEXTO SENTIDO

movie i see dead people 425x218 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Primeiramente, fiquei por uma semana morrendo de medo de ficar em casa com a luz apagada – ir ao banheiro no meio da noite, nem pensar! Também vi na pré-estréia, e só lembro nos jornais as pessoas falando sobre ‘o filme que os americanos estão indo ver duas vezes no cinema’. Nada, contudo, foi mais chocante que o final.

O que acho hoje: Além de ter um roteiro maravilhoso, possui um ritmo lento e crescente visto muito pouco no cinema americano contemporâneo. Mesmo não tendo visto em bastante tempo, continuo adorando.

Influência: Bruce Willis voltou a ter cacife como ator ’sério’ e o clichê de ‘criança sinistra em filme com fantasmas’ voltou com toda a força. Haley Joel Osment se tornou um dos atores-mirins mais conhecidos da história graças à qualidade da atuação e uma frase que já se tornou uma das mais clássicas do cinema: “I see dead people.” Shyamalan se tornou um “auteur”, para alegria dos críticos (só dos franceses) e desespero dos estúdios.

TUDO SOBRE MINHA MÃE

mymother460 425x277 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que eu achei quando vi: Assisti em um Festival do Rio e, mesmo com tantos outros filmes interessantes naquele ano, acabei considerando o melhor de 1999. O travesti mais divertido da história do cinema, a sempre maravilhosa Cecilia Roth e as referências a Tennessee Williams foram os elementos que mais me marcaram.

O que eu acho hoje: Mesmo tendo feito sucessivos filmaços posteriormente, ainda considero este o melhor filme de Almodóvar. Acho que é a obra que de forma mais completa alia seus elementos melodramáticos, mas de natureza essencialmente psicológica, ao visual arrebatador característico do diretor.

Influência: Colocou Almodovar para o público norte-americano (e consequentemente mundial) como um diretor além da estética kitsch. E uma jovem Penelope Cruz chamou muita atenção.

MAGNOLIA

164040  magnolia l 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que eu achei quando vi: Difícil dizer com que personagem eu mais me identifiquei. Julianne Moore novamente dando show e tive a certeza que Paul Thomas Anderson era meu novo diretor favorito, em mais um excelente filme depois de BOOGIE NIGHTS.

O que eu acho hoje: Embora o filme tenha uma legião de fãs, acho interessante como é pouco comentado hoje (na filmografia de Anderson, BOOGIE NIGHTS e SANGUE NEGRO roubam a atenção). E me dá uma raiva ver que outros filmes menores da estética ‘histórias de pessoas problemáticas lutando pra viver na selva de pedra’ recebem elogios sem dar crédito a MAGNÓLIA.

Influência: Conseguiu por um certo tempo colocar Tom Cruise no spotlight como ator dramático. E sua narrativa fragmentada e múltipla (herdade de Altman) rendeu uma série de imitadores (de Paul Haggis a Inarritu).

A BRUXA DE BLAIR

1 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Desorientação e muito, muito medo.

O que acho hoje: Taí outro filme que nunca mais vi, especialmente porque acho que não mereça uma segunda visita. Mesmo assim, acho que essa idéia de câmera na mão e terror na cabeça muito boa.

Influência: O filme que mostrou à indústria de cinema como a internet havia se tornado uma imensa força de divulgação. Teria A BRUXA DE BLAIR sido o primeiro marketing viral? De certa forma, o filme também foi a primeira produção “shaky-cam” com aquela câmera ‘versão labirintite’, isso antes de REC e CLOVERFIELD (e beeem antes do YouTube também). Até hoje é o filme mais lucrativo da história, se compararmos o que custou e o que rendeu.

TOY STORY 2

a2 john lasseter toy story 2 woody buzz lightyear dvd review pdvd 026 425x239 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que eu achei quando vi: Eu adoro o primeiro TOY STORY e achei esse ainda mais divertido. A história é brilhante, e tem gags na medida certa (”Buzz, I’m your father!”).

O que acho hoje: Difícil dizer que é a obra-prima da Pixar, porque também existem WALL-E e RATATOUILLE, mas talvez seja o filme que tenha revelado a maturidade artística do estúdio.

Influência: TOY STORY está prestes a se tornar uma trilogia, e esse segundo filme parece que confirmou como um desenho de animação computadorizado pode ser um sucesso gigante de público e também de crítica. Aliás, o vilão ‘nerd’ poderia muito bem ser da mesma família do outro vilão ‘nerd’ de OS INCRÍVEIS, né?

BUENA VISTA SOCIAL CLUB

bw 10 425x281 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Aula de poesia de Wim Wenders – mesmo nostálgico, não tem a menor pinta de saudosista.

O que acho hoje: Basicamente a mesma coisa, talvez goste um pouco exatamente porque conheci a música cubana através do filme.

Influência: Virou moda fazer documentário sobre músicos tradicionais de um país – no caso do Brasil, foram os sambistas. Na Argentina, foram os cantores de tango.

QUERO SER JOHN MALKOVICH

being jm2 1999   O Ano que não terminou 24 quadros por segundo

O que achei quando vi: Totalmente insano, mas no bom sentido. Lembro de voltar de metrô pra casa e só ouvir “Malkovich, Malkovich?” martelando na minha cabeça.

O que acho hoje: O absurdo das situações hoje me parecem menos engraçadas e mais melodramáticas. Tem coisa mais triste que a história da Cameron Diaz e do chimpanzé?

Influência: Colocou Charlie Kaufman no mapa, assim como sua legião de imitadores. Mostrou que Spike Jonze era capaz de ser talentoso além da esfera do videoclipe. Ver um filme com John Malkovich nunca mais foi a mesma coisa.

1999 também foi o ano de O TALENTOSO RIPLEY, FIM DE CASO, ELEIÇÃO e A LENDA DO CAVALEIRO SEM-CABEÇA. Alguma dúvida de que foi o melhor ano do cinema em muito tempo?