
KICK-ASS talvez seja o filme mais importante do ano. Ele representa melhor do que nenhum outro uma parte do cinema e da sociedade norte-americana: a parte mais horrível dela. O ano ainda está na metade, mas não sei se ainda será possível ser lançado em 2010 filme mais odioso.
Baseado na HQ de Mark Millar, KICK-ASS conta a história de Dave – que funciona menos como personagem do que como caricatura: ele é tímido, nerd, usa óculos, ridicularizado pelas garotas, viciado em quadrinhos e é bullied. Um dia, ele tem um insight: por que na nossa cultura que vangloria super-heróis, ninguém nunca pensou em ser um na vida real? É aí que então Dave compra uma roupa ridícula e mesmo sem nenhum preparo resolve ir lutar contra o crime, adotando o codinome Kick-Ass.
Dave não deve ir muito ao cinema, já que o seu questionamento sobre a ausência de super-heróis no mundo real, que o filme vende como tão original, já foi mais do que ilustrado de forma extremamente convincente em OS INCRÍVEIS e O CAVALEIRO DAS TREVAS (só pra ficar em dois exemplos recentes). Quando resolve lutar com três caras fortões e suas imagens caem na internet, Kick-Ass se torna uma celebridade, fica com a garota, e resolve abandonar sua carreira de super-herói. E essa é a parte do filme que é apenas ruim, não péssima.
É interessante notar que KICK-ASS tem um tom esquizofrênico, nunca sabendo onde termina a sátira e onde começa a cópia daquilo que propõe satirizar. O melhor exemplo disso está na personagem Hit Girl, a verdadeira protagonista do filme. Mesmo tentando tirar leite de pedra com um personagem tão ralo como Dave/Kick-Ass, Aaron Johnson não é páreo para o carisma e o talento bombástico (em mais de um sentido) de Chloe Moretz, a pequena atriz de 11 anos que já tinha chamado a atenção em 500 DIAS COM ELA e aqui rouba todas as cenas como Hit Girl. O filme na verdade é dela, e portanto chega a ser contraditório que muito do que KICK-ASS tenha de mais estúpido e patético se relacione a esta personagem.
Hit Girl/Mindy é uma garotinha de 11 anos criada por seu pai, um cara que foi condenado à prisão injustamente e que, ao ser solto, fica obcecado por armas e vingança contra aquele que o levou à cadeia. O fato desse pai ser vivido por Nicolas Cage, em sua melhor atuação (única atuação boa?) desde ADAPTAÇÃO, diz muito. Na verdade, a própria história entre pai e filha é promissora: ele a cria como uma máquina assassina, e as primeiras cenas entre os dois contrastam a inocência da menina com a neurose do pai. O diretor Matthew Vaughn ironiza a própria paranóia americana aqui, onde uma criança absurdamente cresce em meio a metralhadoras e bazucas, mas essas mesmas armas continuam sendo importantes para o indivíduo se sentir empowered.
Só que com essa premissa, o roteiro se torna vítima das próprias idéias que pretende criticar/ironizar/desconstruir: Hit Girl na verdade não é uma paródia da figura heróica sangrenta que se afirma através das armas – ela é a representação máxima desse discurso. O filme vai do conceito de “imaginem só o que uma cultura que vangloria a violência pode fazer com uma criança!” para “menininha explode os miolos de um homem em câmera lenta e isso é supra-sumo do cool!”. A partir daí, Matthew Vaughn parece achar que quanto mais exageradas as cenas de ação envolvendo essa menina, mais o público vai notar as imagens como hiperrealidade e, portanto, achar tudo divertido. Ela corta a perna inteira de um cara, enfia dois facões em uma mulher e se veste como uma ninfeta sexualizada – mas é pra ser um filme de super heróis, onde as leis de super heróis imperam, poxa vida! Se o público não entende isso, é porque é muito moralista.
Na verdade, várias das críticas negativas sobre KICK-ASS foram por esse caminho, em especial a escrita por Roger Ebert, que disse que o filme era moralmente perigoso e por isso foi xingado de “adulto” (!), já que ele não sabia o que o grande público americano (i.e. adolescentes brancos do sexo masculino de classe média) gostava de assistir. Em especial nos EUA, os críticos pareceram estar mais preocupados com o fato de Hit Girl ter a boca suja (ela fala ‘cunt’ e ‘cock’ como se fossem flores) do que ter uma bazuca em casa. Vejo KICK-ASS menos como um filme moralmente perigoso do que como um espelho da América. Por exemplo: Dave/Kick-Ass se veste de herói para ajudar os outros, mas depois que ele adquire fama na internet (e o merchandising da Apple e do MySpace a cada minuto parecem coisa de novela brasileira) e consegue a garota, seu altruísmo nunca mais é mencionado. O próprio filme parece ser um reflexo do que há de pior na cultura da mídia. Isso porque eu nem comecei a falar do desperdício de McLovin e do arco narrativo bizarro em que o protagonista se finge de gay (!!!) pra conseguir a garota…
KICK-ASS é o pior exemplo do que costumo de chamar de “praga do pós-modernismo”: tudo é pra ser divertido, porque no fundo não dá pra se levar uma narrativa a sério – é só um filme, ora! O principal responsável por isso é, gostando ou não, Quentin Tarantino. Desde que Vincent Vega explodiu a cabeça daquele cara no banco de trás do carro em PULP FICTION, a violência no cinema nunca foi a mesma: tem que ser engraçadinha, as cenas tem de ter uma referência ao próprio ato de fazer cinema, a trilha tem de remeter ao lixo do mundo pop. Só que por mais que Tarantino se esbalde em seus exercícios de metalinguagem e pastiche, ele tem personagens bem construídos que combinam com seu estilo. Em KICK-ASS, quando Hit Girl realiza um banho de sangue vestida de colegial japonesa enquanto toca uma trilha emulando Ennio Morricone, é Matthew Vaughn imitando Tarantino via BATTLE ROYALE influenciado por John Woo. Só que esse oceano de referências é raso demais para que o roteiro construa personagens que realmente signifiquem algo além de seu estilo “look at me, I’m cool” (e as citações a CREPÚSCULO DOS DEUSES, LOST e filmes ótimos de super-heróis só pioram as coisas).
Se KICK-ASS é imoral ou incentiva a violência, não sei (aliás, que exercício comparativo ótimo seria uma sessão dupla com o ELEFANTE de Gus Van Sant hein!). Mas em termos de cinema, é uma das experiências mais ultrajantes que já tive.
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