Há muuuuuito tempo que não via um comédia romântica
tão bem escrita e com personagens tão carismáticos quanto LIBERAL ARTS, o
charmosíssimo filme escrito/dirigido/protagonizado por Josh Radnor (mais
conhecido pela série "How I Met Your Mother"). Misturando elementos do gênero "campus
comedy" (filmes americanos focados na vida universitária), uma pitada de
hipsterismo, uma interessante reflexão sobre amadurecimento e um inveterado
amor pela literatura, LIBERAL ARTS diverte de uma forma genuína e com um frescor
único mesmo no cenário do cinema independente.
O filme conta a história de Jesse (Radnor), um
morador de Nova York bastante insatisfeito com seu trabalho burocrático, que recebe o convite para uma homenagem a ser feita a um antigo
professor, Peter(Richard Jenkins), na faculdade onde estudou. Jesse então conhece
Lizzie (Elizabeth Olsen), uma estudante de graduação por quem vai se apaixonar
e fazer com que ele veja a vida de uma forma diferente.
Uma das coisas mais interessantes de LIBERAL
ARTS consiste na forma com que lida com certos clichês de filmes sobre
amadurecimento - já vistos em GARDEN STATE ou em todo filme de Cameron Crowe -
de maneira nova e até mesmo surpreendente. Os diálogos de Radnor
inevitavelmente passam pelo semi-autobiográfico, o que acaba tornando até mesmo
os momentos mais simples algo de genuíno e cativante.

Esse frescor que nos faz gostar dos personagens
de cara é grande parte mérito do elenco -todo espetacular. Radnor interpreta
Jesse como uma espécie de "everyday man", o que é uma escolha feliz
para um personagem que podia facilmente se tornar um "tipo". Elizabeth
Olsen, provavelmente a mais talentosa jovem atriz em atividade no cinema
americana, é de uma naturalidade assustadora - sente-se empatia e cumplicidade
com ela desde a primeira cena. Richard Jenkins em uma cena devastadora já vale
o filme (e a forma com que a storyline dele se liga a de Jesse/Lizzie é
bastante inteligente). Zac Efron também faz papel-surpresa com um personagem
nada a ver, mas super divertido. E nenhum filme independente americano pode
existir sem Allison Janney, que faz o papel de uma professora universitária com
uma cena pós-sexo que já vale o filme.
O principal charme de LIBERAL ARTS para mim,
contudo, foi a expressão de seu amor inveterado por livros, literatura, e a
discussão sobre o próprio ato de ler. O filme cita Keats ("Ode on a
Grecian Urn" acima de tudo!), Blake (Songs
of Innocence and Experience), Crepúsculo,
Drácula e, especialmente, David
Foster Wallace. O escritor pós-moderno, que se suicidou em 2008, tem uma relação
direta com o filme. A obra-prima de Wallace, Infinite Jest, é um dos livros preferidos de Jess e também de um
aluno deprimido, Dean (John Magaro, excelente), com quem ele desenvolve uma
amizade. O nome do romance (espertamente) nunca é mencionado de forma direta,
mas pela capa e por alguns comentários sobre ele, é possível perceber que se
trata de Infinite Jest.
Além disso, LIBERAL ARTS foi praticamente todo filmado
em Kenyon College, faculdade onde estudaram Josh Radnor (mais um aspecto
autobiográfico) e Allison Janney. Foi exatamente em Kenyon College que David
Foster Wallace fez seu antológico discurso "Isto é água" para uma
turma de formatura.
O discurso - que hoje já faz parte de várias coletâneas de
literatura norte-americana - fala sobre realidade, amadurecimento, auto-afirmação
e a necessidade de ser livre, temas também bastante presentes em LIBERAL ARTS.
Em resumo, LIBERAL ARTS é uma comédia romântica
não apenas sobre amadurecimento mas também bastante madura, lidando de forma
apaixonada com o mundo universitário e literário.